Que nem chuva de meteoritos, hoje queria que me caísses nos braços e, num abraço apertado curasses a saudade que me pesa no coração.
A ausência da tua voz, do teu sorriso tímido, do teu olhar penetrante, daquelas palavras afiadas provocatórias sem malícia, dos teus gestos bondosos e inesgotáveis, dos teus caracóis perfumados, dos suspiros... Ai, os teus suspiros, disfarçados! Como a saudade apertou!
Mesmo que os olhos te encontrem de novo, os braços arrefecem sem o calor do teu abraço. A tristeza da espera, dos horários gatunos, de tudo o que nos rouba um do outro, o tempo custa a viver.
E vivo para esse abraço que chegará. A saudade perecerá mas nunca o desejo de voltar a abraçar-te.
terça-feira, agosto 13, 2019
quarta-feira, junho 12, 2019
Flor de Lótus
Ainda me lembro da primeira vez. Naquela sala, distante, uma rapariga entra e senta-se, meio envergonhada pela novidade de tudo a que rodeia. Na curiosidade, aperto os olhos para ver melhor, como que se os óculos não mais ajudassem a fazer sentido. Não deslumbro o seu rosto, coberto pelos seus cabelos. Na impossibilidade de fazer razão da situação, começa aquele murmurinho com quem está ao lado. "Quem é?", "É nova aqui?", "De onde veio?"...
Saio dali uma vez livre da obrigação e, sem quase emitir o mais pequeno ruído, percorro o corredor para procurar respostas para tanta curiosidade. Noto que por mais cuidado que tente ter, ela apercebe-se da sombra que atravessa a luz e, com um breve cruzar de olhos, desvia novamente a atenção para o trabalho e sigo como uma criança apanhada a roubar uma bolacha da cozinha.
Certo foram os dias seguintes, muitos murmurinhos, muitas questões, muitas incertezas e, recordo-me, que ainda demorou umas boas semanas até que finalmente tivesse a possibilidade de a conhecer, embora por essa hora já sabia mais dela do que ela de mim. Pelo menos deduzo assim ser.
A verdade pode ler-se nos olhos e, ai de mim que sempre olhei todos directamente naqueles pequenos espelhos, fico sem reacção ao perceber que a força falha quando o seu olhar mexe connosco, de tal maneira que a timidez volta a ter dezesseis anos.
Viver e trabalhar rodeado de diferentes belezas nem sempre é fácil, pois o pecado transporta-nos para mil fantasias. Contudo, não passa de brincadeiras de adulto feito jovem inconsciente, guardadas dentro de nós, sabendo que os limites existem e qualquer desejo é digno da filosofia de Platão. Mas no meio deste éden, existe sempre algo que nos toca na alma. São pequenos gestos, um sorriso mais timido, uma provocação mais picante, logo seguido de um aviso de brincadeira mas que, na realidade, não passam apenas de verdades sentidas.
Sei que descartei muitas ideias, e até provocações de pessoas mais próximas, mas estava eu cego perante a evidência nua. Não é novidade para mim! Esta cegueira de morcego acompanha-me deste muito novo, e por mais que a idade aprenda a ver melhor, muito passa-me ao lado. Os sinais estavam todos lá, desenhamos ao mais pequeno pormenor, porém não soube ou quis interpretá-los.
Interpretá-los. Sim, sem dúvida! Não só por estar perdido na tradução das palavras e acções, mas porque o coração ainda perseguia algo que fazia meses que tinha fugido, que jamais olhou para trás ou deu conversa e, não via maneira de colocar um ponto no fim daquela história triste. Custou ultrapassar e admitir que sonhos pintados jamais viriam a luz do dia.
Foi preciso viver a ausência para perceber que a partilha de memórias de uma viagem eram, sem dúvida alguma, como um estender de uma mão a convidar a melhor conhecer uma pessoa especial. A descobrir um pouco mais dela, mesmo que vozes mais próximas pareciam evidenciar que a reserva não seria tão grande como eu a via. Na incerteza procurei desvanecer qualquer nuvem que parecia querer formar-se e, ao encontrar a verdade que tanto ansiava, pura alegria na confiança depositada e na partilha de vivências.
O regresso trouxe aquela surpresa prometida de receber um carinho que nunca mais me abandonou. Foi como que um despertar para uma realidade que apenas já só conhecia dos sonhos. Uma importância que já não sabia reconhecer depois de atravessar um deserto que parecia não ter fim. Desde aí, as linhas brancas de um livro ganharam cor e começou a escrever-se uma nova história. E é nesses momentos, em que finalmente a ficção termina, quando os sonhos ganham uma realidade onde, a principio, as palavras atropelam-se, por vezes sem sentido algum, onde qualquer embaraço termina com um pequeno sorriso ou gargalhada, sem darmos importância alguma.
As últimas duas semanas mexeram com o coração, pois embora o nunca lhe tenha dito, senti sempre o seu olhar quando ela pensava que dava atenção a outra pessoa e, naquele jantar, senti-o por uma ou duas ocasiões. Talvez a bebida do deuses tenha favorecido o atrevimento, e mesmo que a tenha visto fugir cedo, não consegui fechar os olhos sem a certeza dos seus pensamentos.
Poderíamos ter mais dez ou vinte anos, mas não devemos ter sido mais jovens do que naquele momento. Apercebi-me disso, no dia seguinte, ao relembrar as palavras trocadas quando a lua já flutuava bem alta. Uma mistura de atrevimento e vergonha que nos faz querer esconder debaixo dos lençóis, ao mesmo tempo que rimos da surpresa e batemos com os pés de excitação, intercaladente, como se nadássemos a toda a velocidade.
Mas esta segunda.... Ai!... Só consigo suspirar sempre que volto àquele momento e os olhos iluminam-se emocionados. Foi tudo tão mágico, a simplicidade, os risos, o lugar, as memórias, a cumplicidade, a novidade e, em especial, sob o escuro da noite, a confidência.
Sei que sigo a duzentos quilómetros hora, louco com a pressa de chegar, bebado de sentimentos, mas caminhas devagar, pé ante pé, com precaução e contenção. Páro. Espero-te. Acredito que o balanço será alcançado com as sementes que cultivámos, com tempo e paciência, tudo para que uma bela flor possa ganhar raízes, desabrochar e crescer forte.
sexta-feira, novembro 30, 2018
Um passo de dança
O que o tempo faz a mente esquecer, o coração sempre lembra. Esquecemos o que é saborear os lábios dela. Esquecemos como é percorrer os seus longos cabelos, gentilmente, com a nossa mão tremida, como se frágeis fios de ouro se tratassem, enquanto ela se esconde entre eles. Como andar de mãos entrelaçadas, bem apertadas, como a vida disso dependesse. Esquecemos como é trocar olhares sem ser preciso traduzir por palavras o que sentem ou parecem dizer.
Esquecemos tudo isso mas o coração acaba sempre por lembrar. Passamos anos sem o sentir, até despertar para o sorriso de uma bela flor, como que até aquele momento tivesse hibernado e agora, aquecido pelo sol reflectido no seu rosto, despertasse para uma nova primavera. E quanto mais o coração lembra mais vida ganha, mais forte o pulsar, mais rápida a respiração...
Admiro aquela linda flor e vivo fascinado como dança e rodopia ao vento. Parece exibir-se, cativando o olhar mais atento, mas rapidamente dá um passo atrás. O tempo proporciona uma aproximação e ela acena, como que dando permissão. O feitiço logo quebra com a verdade das palavras doces, agora amargas. A calma finalmente assenta. Aceita-se a realidade e na confiança um do outro deposita-se o futuro. A dança dela parece contar uma história de amor, mas em que porta se esconde o seu final feliz?
Hipnotizado, o coração ocupa o lugar da razão. A fonte do raciocínio teve o seu desastrado reino e nada proporcionou. À noite e à distância, a sua delicada voz, tremida por algum nervosismo mas também cuidado, parece sussurrar-me "miarma... miarma...". Estarei de tal maneira louco, ao ponto de me perder na tradução, ou estarei somente a ouvir o que ela ainda não diz?
As noites são agora mais longas, os sonhos já não me acorrentam como que me arrastando para falsas realidades, os olhos, por seu lado, recusam-se a adormecer. Viajar para as longínquas terras do sono significa perdê-la até ao acordar e isso é roubar-me da sua dança.
sexta-feira, agosto 29, 2014
Rockabilly gal
Nas últimas quatro semanas vi-me obrigado a dar corda às pernas, isto depois de ter sido atacado pelo azar. Como em tudo o que é mau na vida, existe um período de raiva, depois de frustração e por fim a esperança que renasce das cinzas.
No esforço adicional do dia-a-dia, no vaivém entre casa-trabalho-casa, os rostos com os quais me cruzava começaram a arrendar um lugar na memória. Não tardou muito para começar a reconhecê-los num local específico e a uma determinada hora.
Pela hora da lua, houve um rosto que se destacou dos demais. Um rosto liso, só com um pequeno piercing decorativo, uma pequena poupa rockabilly e uns óculos que lhe davam um aspecto intelectual mas ao mesmo tempo descansavam no seu rosto de forma perfeita e bastante sensual.
A timidez que pensava já ter enterrado no passado deu sinal de vida sempre que o metro parava à minha frente, naqueles milésimos de segundo de espera até a porta se abrir era possível contemplar o interior da carruagem e, quase sempre, naquele específico lugar lá vinha ela sentada, com uma postura firme e direita. Das primeiras vezes não fazia caso para além de ter percebido desde o primeiro dia que ela se destacava dos demais passageiros. Com as repetições dos dias apercebi-me que o olhar dela procurava-me mas logo fugia quando o meu chocava com o dela. Nada de mais se tivermos em conta que o ser humano é desconfiado e por vezes protege-se ao não permitir o contacto de olhares.
Não sei bem porquê, viajei sempre naquela carruagem aquela hora, e cada vez mais notava que o seu olhar, a partir do momento em que pisava a carruagem, focava-se em mim, chegava mesmo a ser intimador ao ponto de ter que olhar para o outro lado da carruagem durante a viagem, por vezes ganhando coragem para procurá-la, sempre receoso de ser apanhado...
Podíamos entrar sempre em estações diferentes, mas a de saída coincidia. Ela tinha por hábito levantar-se primeiro que a maior parte das pessoas e aproximar-se da porta da carruagem antes de a mesma chegar à estação. Não era a mesma porta que a minha, pois ela escolhia sempre a seguinte. Enquanto eu escalava as escadas, dois degraus de cada vez e depois um passo meio acelerado, ela subia uma a uma depressa, aumentado depois o seu passo. Ao mesmo tempo que o fazia o seu braço esquerdo acompanhava o movimento, quase como um militar a marchar, enquanto que a sua mão direita segurava firmemente uma pequena mala estilizada. Quase que tudo parecia uma competição entre nós dois, como que um desafio para ver quem chegava ao próximo átrio primeiro.
Por vezes saía na frente, e pelo canto do olho espreitava o reflexo nas lojas da estação para ver quantos passos atrás vinha ela. Quando ela liderava, e já mais descarada, virava a cabeça ora para o lado direito ou para o esquerdo, e mesmo que fosse só para pentear o cabelo o certo é que o meu reflexo era visível. Já no átrio seguinte, sempre que os lugares estavam disponíveis aproveitava para descansar um pouco. Quer ela se sentasse também ou permanecesse de pé, não conseguia evitar pensar como seria apaixonar-me por ela. Lá está, a costela hopeless romantic a vir ao de cima...
Já no átrio seguinte, enquanto o metro não chega é normal que as pessoas procurem um lugar sentado para esperarem. Por norma, nenhum de nós procurou alguma vez um lugar, mas das últimas vezes o oposto foi verdade, naquela fatídica última semana, dois lugares separavam-nos, por fim, na minha última viagem quis o destino que nos sentássemos juntos um do outro. Lembro-me que nesse dia, conforme descíamos as escadas de acesso ao átrio, ela soluçava, e mesmo com música a invadir os meus ouvidos era evidente o seu soluçar. Confesso que achei-lhe piada por que ela tentava evitar dar nas vistas, assim foi impossível eu conter um sorriso. Imaginei mesmo chegar ao pé dela e pregar-lhe um susto para solucionar os seus soluços.
Preso aos meus receios mantive o meu ritmo e conforme ela encontrou um lugar para sentar-se eu fiz-lhe companhia. Não me lembro de sentir-me tão pouco à vontade como naquele momento. Qualquer movimento que fizesse ela reparava logo. Ela por seu lado, que sempre se mantia quieta à espera do metro, pegava no telemóvel, folheava os menus e depois desviava o olhar para o horizonte. Sente-se uma brisa a aproximar, ela levanta-se e dá uns passos em frente enquanto ajusta a roupa enquanto encontra o lugar onde a carruagem irá parar. Ao contrário de mim que opta pela última porta, ela prefere a ante-penúltima. No meio da pessoas vejo-a a escolher um assento e sentar-se, desvio logo o olhar pois é a vez dela procurar-me... A mente vomita todos os palavrões de que se lembra, culpando-me por não ter aproveitado a oportunidade para falar com ela. O que mais me custa é que nem o nome dela irei guardar... Uma estação depois, saio frustrado e triste. Porém, a imagem dela será eterna como o olá que nunca dissemos.
Paixões secretas
Viver constantemente apaixonado não é modo de vida para qualquer uma pessoa. É certo que tem o seu lado positivo e apetecível, só que implica aceitar também o seu oposto, aprender a lidar com expectativas frustradas e sonhos não concretizados é tarefa dura. É capaz de ser um peso por demais incómodo, difícil de carregar em troca de momentos fugazes de plena satisfação. Embora seja tarefa dolorosa, a partir do momento em que a dor é aceite como um processo natural e evolutivo, é possível melhor adormecê-la e apreciar tudo o que de bom é-nos oferecido por esse estado quase enamorado.
Se uma pessoa é a faísca que precisamos para esboçar um sorriso, então não existe motivo algum para evitá-la ou auto-julgarmos-nos, com direito a pena de culpado. Se sentimos o acelerar do coração e a respiração ofegante sempre que falamos com ela e, até tropeçamos nervosamente nas palavras, então para quê ficar num canto sozinho, em silêncio e a suspirar?
Se uma pessoa é a faísca que precisamos para esboçar um sorriso, então não existe motivo algum para evitá-la ou auto-julgarmos-nos, com direito a pena de culpado. Se sentimos o acelerar do coração e a respiração ofegante sempre que falamos com ela e, até tropeçamos nervosamente nas palavras, então para quê ficar num canto sozinho, em silêncio e a suspirar?
É certo que apesar de sonhar com contos de fadas, são estas paixões que, por vezes difíceis de serem consideradas somente platónicas, fazem esquecer amarguras passadas e acreditar que novas e melhores portas se vão abrir. Já me ouvi dizer que tudo isto não passa de sentimentos passageiros, ou pelo menos gostaria de pensar que assim o é... O facto de não existir qualquer possibilidade de os sentimentos materializarem-se numa relação a dois, assegura que uma pessoa aceite dançar embora jamais tire os pés do chão e se deixe levar pela imaginação. É muito complicado moldar em palavras a confusão que atormenta a minha mente.
Às vezes gostaria de ser o espectador que vê tudo à distância e perceber se faço por cair no óbvio, de tanto beicinho que para ali deve morar. Tenho perfeita consciência que estou sempre disponível para lhe fazer companhia nas pausas do dia-a-dia, que estou sempre atento ao que a rodeia mas também que abuso das palavras e dificilmente consigo colocar um ponto final nelas! Um pouco como não a quisesse perder para o resto do dia. Depois, aquele momento em que a encruzilhada nos obriga a percorrer trilhos diferentes, oferecer um simples "até já" é penoso demais!
A real questão no meio de tudo isto é se é perceptível este comportamento alterado, a ela ou a quem nos observar de perto. Confesso o embaraço que sinto se assim o é perceptível, ao mesmo tempo que um rosado quente preenche a minha face e marca-o vincado. São estes momentos que me fazem pensar que ainda sou um jovem inconsciente, e até um pouco ingénuo, que se deixa levar pelo encanto de musas e paixões impossíveis.
Como se de um baralho de cartas se tratasse, nunca se sabe a carta que sairá, porém uma pessoa nunca perde a esperança que a carta certa seja revelada, tal como não perde a esperança que a paixão secreta seja de alguma forma descoberta e correspondida.
É tão bom viver neste estado apaixonado, poder chegar a casa e parar, e nesse instante visualizar o seu rosto, vê-la sorrir, ou utilizar aquela expressão que nos faz rir ou a outra que nos aquece o coração. Como que se admirássemos a lua lá no alto, deixamos a cabeça cair encostada na cadeira, a imaginação cega-nos e começamos a rever o filme do dia que ali caminhava para o seu término. É tudo tão sereno e maravilhoso. Pouco importa que aos poucos a ansiedade dê sinais de vida e logo voltamos à realidade, um semblante já não tão alegre pela sina da vida remeter-nos somente para a memória.
Procuramos tanto algo a que possamos chamar felicidade, só que nessa busca não nos apercebemos que já podemos ser felizes. Queremos tanto o que é impossível que não nos apercebemos o quanto alguma coisa pode ser possível. Eu, que gosto tanto de sonhar com aquele momentos perfeitos, não me apercebo que já ficaram para trás e que as correntes da memória só me impedem de avançar por que assim quero. Talvez, o melhor sonho da felicidade que procuramos é sem duvida viver um grande momento, junto da pessoa que sabe viver os pequenos instantes.
Às vezes gostaria de ser o espectador que vê tudo à distância e perceber se faço por cair no óbvio, de tanto beicinho que para ali deve morar. Tenho perfeita consciência que estou sempre disponível para lhe fazer companhia nas pausas do dia-a-dia, que estou sempre atento ao que a rodeia mas também que abuso das palavras e dificilmente consigo colocar um ponto final nelas! Um pouco como não a quisesse perder para o resto do dia. Depois, aquele momento em que a encruzilhada nos obriga a percorrer trilhos diferentes, oferecer um simples "até já" é penoso demais!
A real questão no meio de tudo isto é se é perceptível este comportamento alterado, a ela ou a quem nos observar de perto. Confesso o embaraço que sinto se assim o é perceptível, ao mesmo tempo que um rosado quente preenche a minha face e marca-o vincado. São estes momentos que me fazem pensar que ainda sou um jovem inconsciente, e até um pouco ingénuo, que se deixa levar pelo encanto de musas e paixões impossíveis.
Como se de um baralho de cartas se tratasse, nunca se sabe a carta que sairá, porém uma pessoa nunca perde a esperança que a carta certa seja revelada, tal como não perde a esperança que a paixão secreta seja de alguma forma descoberta e correspondida.
É tão bom viver neste estado apaixonado, poder chegar a casa e parar, e nesse instante visualizar o seu rosto, vê-la sorrir, ou utilizar aquela expressão que nos faz rir ou a outra que nos aquece o coração. Como que se admirássemos a lua lá no alto, deixamos a cabeça cair encostada na cadeira, a imaginação cega-nos e começamos a rever o filme do dia que ali caminhava para o seu término. É tudo tão sereno e maravilhoso. Pouco importa que aos poucos a ansiedade dê sinais de vida e logo voltamos à realidade, um semblante já não tão alegre pela sina da vida remeter-nos somente para a memória.
Procuramos tanto algo a que possamos chamar felicidade, só que nessa busca não nos apercebemos que já podemos ser felizes. Queremos tanto o que é impossível que não nos apercebemos o quanto alguma coisa pode ser possível. Eu, que gosto tanto de sonhar com aquele momentos perfeitos, não me apercebo que já ficaram para trás e que as correntes da memória só me impedem de avançar por que assim quero. Talvez, o melhor sonho da felicidade que procuramos é sem duvida viver um grande momento, junto da pessoa que sabe viver os pequenos instantes.
quarta-feira, dezembro 25, 2013
A doce balança da paixão salgada.
São poucos, tão poucos e tão pequenos, os dias que ainda faltam viver deste 2013. Nestes últimos dias tenho viajado no tempo, em espécie de balanço, a tentar perceber se tenho motivos para sorrir ou para chorar. É uma viagem que faço na memória, uma viagem longa e difícil.
O início do ano foi ingrato, com um arrastar de sentimentos que transbordaram do ano morto para este, carregado de dúvidas, de paixão, de saudades, de tristeza, de sentimentos inconstantes e revoltados. Podemos afastar-nos das pessoas mas é tão difícil apagá-las da nossa vida, ainda para mais quando sentimos que o ponto final ainda é uma virgula à espera de mais palavras e novas histórias. Foi um batalha cruel que só com ajuda indirecta foi ganha, ou assim quero acreditar, porque as dúvidas permanecem.
Porém, a primavera ofereceu-me uma flor que trouxe de volta a alegria à minha vida. Senti-me de novo vivo e cheio de energia, capaz de lutar pela causa mais impossível, com a coragem de saltar da nuvem mais alta sem pára-quedas, sem medo para enfrentar a realidade. Ainda consigo recordar-me daquele dia em que o cansaço não foi entrave para a paixão sem limites, o susto que se seguiu e a nova história que se escreveu. Hoje, ainda lamento que o que a primavera ofereceu, aquela bela flor, tenha murchado e tivesse desaparecido. Não foi fácil, talvez por isso ainda me lembro, sem esforço algum, de todos aqueles dias em que a reguei com amor e carinho.
Conheço-me bem, sei que vivo constantemente enamorado por caminhares que nem sequer conheço ou, se o indício é certo a pequena obsessão é alimentada sempre que o olhar recai sobre ela. Neste preciso momento consigo mesmo visualizar a maneira com esboça um sorriso e, quase que sem dificuldade alguma, se questionado, sei afirmar se é sincero ou por conveniência. São pequenos sonhos que mantêm o coração a bater pelas melhores razões e iludido enquanto que o vazio não é devidamente acondicionado por motivos mais reais.
Já o verão transpirava a algum tempo quando descobri a salvação para o meu caseirismo compulsivo. Numa mistura de voluntariado com a paixão pela ficção científica conheci um grupo fabuloso de pessoas, as mesmas pessoas que me acolheram como parte de uma família mundial e ajudaram-me em todos os passos até finalmente ter um retorno gratificante a todos os níveis. Sem dúvida que esta pequena revolução nesta minha vida seja grande parte da minha alegria no ano que está para chegar.
Deste ano levo comigo uma lição para a vida. Cresci com os meus erros e as minhas escolhas. Só isso permite-me olhar para o futuro com uma grande esperança, acima de tudo com um sentimento de confiança que não era visível em mim faz uns bons cinco anos. Se os anos e os números não me atraiçoam, prevejo um ano cheio de camaradagem, mas mais do que isso, um ano em que o amor conquistará um lugar na minha vida. Mais que tudo que assim o seja.
sábado, setembro 28, 2013
Insaciável Sabor do Amor
Qual a hipótese de as peças encaixarem, uma atrás da outra, de forma harmoniosa,como sempre a mente planeou cegamente, mesmo sem grande esperança de ver um puzzle ganhar vida? Foi preciso uma certa coragem para colocar a primeira peça em jogo, afinal a vergonha de falar com a morena que faz os meus olhos sorrir, claramente enfeitiçados por uma beleza ignorada por tantos (ou talvez não), que deixa o coração agitado numa ânsia desenfreada, a voz a tremer e as palavras convulsivamente engasgadas pelos nervos.
Tentar passar despercebido e apresentar a proposta que me arrastou até ali, foi projecto de um bom número de dias a tentar escrever no argumento digno de um best-seller! Talvez pudesse estar a exagerar, mas sem dúvida que demorei para lá chegar! Mascarado de inocente pedido, a vontade de ouvir uma só palavra, em tom de resposta, a uma pergunta que nunca foi feita era expectativa meio frustrada.
A verdade é que a recepção que obtive foi melhor do que poderia alguma vez imaginar e, embora permanecesse ali, descontraído, ainda que a gaguejar ligeiramente, sob o olhar de um grupo que me conhece há muito tempo, certo é que lá no fundo disparava foguetes em puro êxtase! No fim do dia sabia que quando o sol nascesse de novo ia brilhar forte e, tal como um farol que orienta as embarcações na escuridão, sei que seria a minha estrela lá bem no alto, desenhando uma rota segura até ao porto onde ela habitava. Ao chegar motivo suficiente para partilhar mais do que uma saudação banal e fria.
Quando paro para pensar dou comigo a falar sozinho, não precisamente em frases bem construídas mas palavras soltas ou mesmo só sons de quase histeria, a bater palmas sem querer acreditar, a procurar pontos no tecto onde fixar o olhar, inocentemente esboçando um sorriso de lábios fechados, procurando revelar o rolo de fotografias que o olhar tinha retratado durante o dia e preservado de forma segura na mente. É tão saboroso poder sentir próximo quem não está presente...
Será que se apercebe do meu gaguejar atrapalhado, meio infantil? Não o sei, talvez até o ache estranho e a assuste... A verdade é que tenho tempo para o perder, por completo, ainda para mais quando não é parte da minha verdadeira pessoa! Ao chegar esse dia sei que estarei perfeitamente à vontade na sua presença, sem sentir que poderei estar a ser avaliado ou a tentar manter um assunto só para ter a oportunidade de a tentar conhecer e descodificar.
Ai estas situações incómodas! Valem mil e um suspiros perdidos... Esta necessidade de obter respostas a perguntas nunca feitas, proibidas mesmo por desvendarem as reais intenções... Enfim... Suspiro...
Baby steps, baby steps!
sábado, agosto 10, 2013
Sete dias de Inferno, dois segundos de Paraíso
Puta de semana! Acho que só assim poderei melhor descrever os sete dias de trabalho, mais horas extraordinárias, que agora terminam! É assustador quando o prazer que temos pelo que decidimos fazer na vida como carreira se transforma em pesadelo puro e duro. É ainda mais assustador quando o que me chega às mãos é um exemplo do que se aprende num qualquer curso de audiovisuais, como sendo o que nunca se deve fazer. Fosse só isso e até seria tolerável, mas há mais! Sei bem que são muitos os que preferem bater à minha porta, mesmo que tenham de percorrer um corredor inteiro para lá chegar, em vez de pararem na primeira ou segunda sala. Sei que isso se deve à opção de trabalharem comigo em prejuízo de colegas que, por seu lado preferem comportar-se como robôs e executarem tudo de forma básica, sem grande criatividade, mas também é verdade que alguns são os que rapidamente fogem da sala quando alguém lhes bate à porta, oferecendo uma desculpa qualquer para se ausentarem, obrigando assim os jornalistas a esperar ou procurar outro colega. Bem, nem tudo é mau, também é verdade que preferem trabalhar comigo porque a boa disposição também é importante para a harmonia no trabalho, já a rapidez de concretização e independência nas opções de edição permite confiar num produto final concluído a tempo e com qualidade.
Por tudo isto é que as grandes semanas, não pela magnificência das mesmas mas sim pela duração, acabam por ser penosas! Modéstia à parte, todas as pessoas correm para a minha sala e a carga de trabalho acaba por desgastar uma pessoa, ainda mais quando olhamos, através das paredes de vidro, para o colega do lado a jogar no computador ou simplesmente a ver televisão. Aí o meu mau humor e sentimento de revolta vem ao cima! Claro que as pessoas acabam por não compreender como um indivíduo sempre tão bem disposto transforma-se numa pessoa fria e cruel. Contudo, a verdade é que não é de propósito, ou algo que se pareça, é sim um modo de defesa, até porque ao fim de alguns minutos, mesmo que contrariado, a boa disposição volta a reinar no local de trabalho.
Infelizmente, não consigo ser um mau profissional como alguns dos meus colegas, não consigo recusar trabalho com a facilidade com que eles o fazem, afinal estou ali para executar uma tarefa, pela qual recebo um montante ao fim do mês. Por vezes digo que se ganhássemos à peça então havia muita boa gente que ia para casa só com uns trocos e eu com a carteira recheada...
Sexta-feira foi longa, muito longa, começar às onze horas da manhã, a pedido das chefias, e percorrer o dia inteiro até às nove e meia da noite, para além da hora que tinha para sair, custou! O esforço todo acabou por ser compensado por um gesto pequeno mas de importância grandiosa, poder ir para casa a pensar num momento mais intimo, pelo menos aos meus olhos, vivido minutos antes de picar o ponto. Esse pequeno gesto de agradecimento transportou-me até as nuvens e, conduzi até casa de sorriso largo e feliz, sem sequer me aperceber que as folgas tinham começado.
Infelizmente, não consigo ser um mau profissional como alguns dos meus colegas, não consigo recusar trabalho com a facilidade com que eles o fazem, afinal estou ali para executar uma tarefa, pela qual recebo um montante ao fim do mês. Por vezes digo que se ganhássemos à peça então havia muita boa gente que ia para casa só com uns trocos e eu com a carteira recheada...
Sexta-feira foi longa, muito longa, começar às onze horas da manhã, a pedido das chefias, e percorrer o dia inteiro até às nove e meia da noite, para além da hora que tinha para sair, custou! O esforço todo acabou por ser compensado por um gesto pequeno mas de importância grandiosa, poder ir para casa a pensar num momento mais intimo, pelo menos aos meus olhos, vivido minutos antes de picar o ponto. Esse pequeno gesto de agradecimento transportou-me até as nuvens e, conduzi até casa de sorriso largo e feliz, sem sequer me aperceber que as folgas tinham começado.