Namasté minha querida.
Certamente poderás estar pensar que estou em falta, pois o hábito cria nas pessoas expectativas sobre situações já tornadas rotinas, e não estarás enganada, já andava a algum tempo para te escrever e contar como vivi o nosso reencontro. Acredito que já estejas a esboçar um pequeno sorriso só por esse facto, já a saborear as palavras que ainda não conheces.
É curioso, mas não sei muito bem como descrever tudo o que se passou, pois olho para esse dia e tenho a noção de que não tinha consciência alguma do que fazia ou dizia, como não estivesse dono de mim. Ainda quis acusar o nervosismo e levá-lo a tribunal, contudo seria fútil, pois deixei-o em casa nesse dia, talvez o meu contentamento tenha levado a melhor, e quase como uma criança, sem noção dos seus actos, me deixei levar por ti.
Enquanto esperava por ti, abrigado da bênção de S. Pedro, desesperava por não ver a hora de te rever, procurando em cada carro que passava a cor do teu, tentando perceber quem conduzia, irritado, confesso, por o senhor da loja do lado ter metido conversa comigo, sei lá sobre o quê, quando o que queria é que me deixasse em paz para ter a certeza que não ias longe demais. Hoje lembro-me que mal me despedi do caro senhor quando corri para abrir a porta, e um pouco como um filme de Hollywood, entrar dentro do carro e sentir uma alegria tremenda de te encontrar, como se que de repente o mundo todo coubesse dentro daquele espaço confinado, protegido pela chuva dispersa.
Das poucas coisas que imaginei, e que mais tarde partilhei contigo, é que agora sabendo a localização do meu esconderijo ficas automaticamente convidada para bateres à porta, sem necessidade alguma de justificações, somente a vontade de lá estares, nem que por breves momentos...
Foi por demais agradável a descoberta de novos sabores na melhor das companhias, embora um pouco assustado com a imagem que possa ter ficado do animal devorador em que me transformei, pelo menos naquele dia. Hoje rio-me desse pequeno pormenor, embora meio embaraçado por tal atitude, certo que não constará do manual da boa etiqueta.
Agora não percebo porque ainda avisas que vais fumar, confesso que adoro esse teu modo de ser, provavelmente preocupado com o que eu poderia pensar, vendo nisso uma necessidade de te justificares, ou de certa forma desculpares-te. E mesmo tu sabendo que jamais poderia proibir-te de tal acto viciante e necessário de satisfazer lá continuas, de forma adorável, a chamar à minha atenção para o facto.
Adoro partilhar todos aqueles minutos que passo contigo, minutos que depressa se transformam em horas, sem nos apercebermos como eles acabam a certa altura por reduzir e colocar um ponto final a todos aqueles momentos de partilha e felicidade. Essa ventura fica gravada na memória e, sempre que te sinto longe, faço play, recordando-me dessas ocasiões, mergulhando nesse mar tranquilo e ali permanecer a flutuar, calmo e pacífico, sem qualquer problema a atormentar a mente, enamorado por um quase sonho.
Segura esta carta entre as tuas delicadas mãos como o meu profundo agradecimento por todos as sextas-feira que marcámos no calendário, por todos os motivos de contentamento vividos e, diria até, por todos os outros que hão-de ser experienciados. Que rude sabor esta última palavra parece ter, não é? Quando o seu significado é bem mais doce.
Fica esta carta lacrada com um beijo de amizade.
Pedro