Lembro-me que quando era mais novo, por altura do Natal, seleccionava os brinquedos que já não me entretinham tanto como outros. Era uma escolha difícil, pois naquele tempo pensava que só pelo facto de já não brincar mais com eles, que o amanhã podia ser o dia em que os voltava a animar e escrever novas histórias de aventuras. O mesmo fazia o meu irmão com os seus brinquedos.
Já com um ou outro saco cheio o nosso pai levava-nos ao bairro mais perto, onde as carências do dia-a-dia não proporcionavam a alegria dos brinquedos às crianças que lá habitam, guiados por ele distribuíamos, mão em mão, um carro, um jogo, o que quer que a lotaria do saco decidisse. Era naquele destino que a vergonha se apoderava do nosso olhar ainda inocente e assustado, ao mesmo tempo, e sempre negando-o ou comentando o facto, era uma alegria ver alguém do nosso tamanho e idade sorrir perante tais ofertas. Na altura era um acontecimento estranho para nós crianças, contudo hoje permite-me olhar para esta época festiva com outros olhos, longe de consumismos desenfreados e inúteis.
Sei de dois meninos, os quais já considero como sendo parte da família, ou não fosse a mãe uma grande amiga minha, que sem o saberem vão perceber que a esperança será sempre a última coisa a morrer, que até ao último minuto vale a pena acreditar no sonhos e na sua concretização, mesmo em tempo de crise no mundo do adultos. Assim o aprendi ainda pequeno, foram acções como a simples partilha de brinquedos que me moldou até à independência adulta, evitando cair num mundo negro da corrupção do egoísmo.
Nem tudo depende das crianças, cabe a nós, aqueles que detêm o verdadeiro poder, ajudar a concretizar os seus sonhos, pois o obrigado de um sorriso infantil é a melhor prenda, e a mais sincera, que alguém alguma vez pode receber e, ao mesmo tempo, uma lição de partilha, amizade com, bem, uns pozinhos de magia à mistura...
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