sexta-feira, setembro 28, 2012

Partir sob uma lua amiga

No escuro do apartamento, esticado sobre o sofá entretido com um dançar de dedos no comando de um jogo, dei com um toque tão familiar a soar do telemóvel. Admirado por alguém se lembrar de mim àquela hora corri para ele e logo desbloqueie para espreitar a mensagem. O carregamento da mensagem foi imediato mas não pareceu, mil e uma perguntas encheram a mente durante esse período de tempo, quem poderia ser, o que teria acontecido e, até pensei que pudesse ser alguém próximo com saudades... De repente apercebo-me do remetente, uma doce memória transformou-se num sorriso carinhoso, contudo, conforme os olhos caminhavam em direcção das próximas palavras, o coração apertou! Aquelas palavras denotavam uma corrente de lágrimas que percorriam o rosto de uma pessoa devastada pela racionalidade que faz de nós seres especiais. Tive o impulso de responder, de forma verbal, a essa triste notícia. Parei! Tentei fazer razão de tudo o que se estava a passar naquele instante e percebi que, apesar da amizade e um historial longo de afeição especial, não devia fazer sentir-me presente mais do que o necessário, mesmo que cá dentro aquele sentimento forte de protecção me empurrasse para lhe ligar.

Nas suas palavras revivi boas memórias da partilha de vivências com um ser que lhe era, e é, especial, não mais ou menos que os outros dois. Pessoalmente, não sei muito bem como é que alguma vez lidarei com a perda da minha adorada Cookie ou o adorável Joey, sei sim que a amargura e aflição será difícil de controlar e, por isso, será possível imaginar como é que alguém lida com a perda de alguém próximo, porque seja humano ou não, não interessa!

Quem me conhece sabe que o meu amor por gatos transcendente qualquer tipo de relação que possa ter com um cão. O bichano que ontem deixou de respirar era-me querido, não pela sua natureza mas por fazer parte de um percurso da minha vida extremamente importante. Era a sua simpatia, a sua maneira de me dar as boas vindas, a sua calma e beleza que o elegeram como favorito de três. Uma das memórias mais vivas é de um simples passeio, talvez a única vez que esteve cem por cento ao meu cuidado, em redor da urbanização, não só por ele mas também pela companhia e as palavras tocadas.

Felizmente, só posso dizer maravilhas desses tempos, agora distantes, sei que nunca será esquecido, muito menos pela sua família, e gosto de pensar que sempre fiz parte desse círculo.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Começar de novo

A cura será sempre filha do tempo. Pensei ter achado a solução para um coração despedaçado, mas a verdade é que a resposta sempre lá morou. Foram tantas as vezes que ouvi as pessoas dizerem, na sua maior parte das vezes em forma de conforto, que o tempo cicatriza todas as feridas abertas, que adocica a vida amarga e devolve o sorriso a uns lábios secos. Porém a intensidade dos sentimentos deixam pouco espaço para qualquer racionalidade, por isso só percorrendo esse trilho de carris, nunca desviando do percurso, que aos poucos retomei o gosto à vida, aos pequenos pormenores que me dão paz de alma e desfazem a ansiedade em cinzas dispersas pelo vento.

No mar sereno de sentimentos consegui de novo racionalizar os pensamentos, que por sua vez permitiram ver transformado em energia positiva gestos que são parte importante de tudo o que me caracteriza como ser. A obsessão deu espaço à sociabilidade fora de portas. Afinal, as pessoas com quem me cruzo são as mesmas mas a minha atenção é agora maior, não pela oportunidade mas sim por conseguir interessar-me de novo com as suas palavras, com as suas brincadeiras, as suas gargalhadas, sem que em momento algum as memórias me acorrentem e arrastem para um passado de desejos proibidos.

Este coração, outrora prisioneiro daquele rosto feminino, sente-se finalmente liberto de qualquer corrente, a apreciar a brisa da liberdade e esperançoso pelo que o futuro possa reservar.