Nem todos os inícios de uma história nascem de um sonho ou de uma ideia. Por vezes, é preciso um final, uma conclusão, para o mais belo conto ver escrito as suas primeiras palavras.
É curioso, os mais banais diálogos, que tanto bocejamos no nosso dia-a-dia, podem ocultar pequenas acções de um subconsciente que faz por bater o coração mais depressa, acelerando-o como quem se esforça por atingir uma meta. Só que andamos tão perdidos, por entre rotinas, que nem sempre nos damos conta de um peito que faz por chamar à atenção, que grita tão alto aos nossos ouvidos moucos, corrompidos por uma sociedade ensurdecedora que os mantém cobertos. Só quando paramos, deslizando pelas águas serenas da nossa mente, é que parece percepcionarmos um sussurro à distância, como se fosse um grilo que se esconde no horizonte, assinalando a sua presença e, ao mesmo tempo, como que a convidar a nos aventurarmos por um novo mundo.
Quando damos por nós, olhando em redor, encontramo-nos num tabuleiro de um jogo misterioso, onde os sentimentos são postos à prova. As mais secretas palavras acabam por batalhar entre si, procurando sinais para a correspondência de um coração apaixonado. É um jogo arriscado, as expectativas são grandes, a ansiedade sedente por se alimentar do receio de uma negação. Lançam-se dados, em cada um dos seus lados uma letra transforma-se, é difícil adivinhar um nome, mesmo tendo a certeza dele, porém nunca a coragem para o nomear da mais directa forma. Afinal de contas, se se entra neste jogo é porque pensamos ter certeza de possuir o trunfo que fará por assegurar a doce vitória de um futuro feliz.
Este jogo só é ganho quando ambos os lados possuem o tal trunfo, composto por uma a palavra ou frase mágica, segredo que é a chave para abrir a porta de uma realidade, até ali só imaginada. Com a descoberta ascende-se a um patamar mais elevado. As pulsações fogem ao controlo do racional, a respiração parece cortar o ar mais denso e, sem o saber, alimenta-se o paladar com a troca de olhares, longe de todos mas tão perto de alguns. Mal se repara que o dia não é propício a grandes passeios, o vento empurra a maré, como que fizesse por folhear as páginas de um livro de memórias ali partilhadas. São tantas as mensagens que se deparam com altas muralhas, que só a insistência de um desejo ardente as consegue reduzir a mera poeira.
A tarde faz-se caseira, as palavras que até aquele momento transpiravam animo e boa disposição começam a tremer, provavelmente antevendo o silêncio de um beijo. Verdade seja dita, estava escrito que assim seria, por isso adiar aquele momento inevitável era inútil, só mesmo o cansaço de uma longa semana cuspia palavras sem grande sentido e mais que repetidas! A paciência de um foi a conquista do outro, lábios entrelaçados e o calor do momento despiu-os de qualquer preconceito ou medo que pudesse pairar no ar, ainda respirável e morno. Era o principio do fim da solidão e o inicio de duas vidas entrelaçadas, esperançosas e devotas.