Nas últimas quatro semanas vi-me obrigado a dar corda às pernas, isto depois de ter sido atacado pelo azar. Como em tudo o que é mau na vida, existe um período de raiva, depois de frustração e por fim a esperança que renasce das cinzas.
No esforço adicional do dia-a-dia, no vaivém entre casa-trabalho-casa, os rostos com os quais me cruzava começaram a arrendar um lugar na memória. Não tardou muito para começar a reconhecê-los num local específico e a uma determinada hora.
Pela hora da lua, houve um rosto que se destacou dos demais. Um rosto liso, só com um pequeno piercing decorativo, uma pequena poupa rockabilly e uns óculos que lhe davam um aspecto intelectual mas ao mesmo tempo descansavam no seu rosto de forma perfeita e bastante sensual.
A timidez que pensava já ter enterrado no passado deu sinal de vida sempre que o metro parava à minha frente, naqueles milésimos de segundo de espera até a porta se abrir era possível contemplar o interior da carruagem e, quase sempre, naquele específico lugar lá vinha ela sentada, com uma postura firme e direita. Das primeiras vezes não fazia caso para além de ter percebido desde o primeiro dia que ela se destacava dos demais passageiros. Com as repetições dos dias apercebi-me que o olhar dela procurava-me mas logo fugia quando o meu chocava com o dela. Nada de mais se tivermos em conta que o ser humano é desconfiado e por vezes protege-se ao não permitir o contacto de olhares.
Não sei bem porquê, viajei sempre naquela carruagem aquela hora, e cada vez mais notava que o seu olhar, a partir do momento em que pisava a carruagem, focava-se em mim, chegava mesmo a ser intimador ao ponto de ter que olhar para o outro lado da carruagem durante a viagem, por vezes ganhando coragem para procurá-la, sempre receoso de ser apanhado...
Podíamos entrar sempre em estações diferentes, mas a de saída coincidia. Ela tinha por hábito levantar-se primeiro que a maior parte das pessoas e aproximar-se da porta da carruagem antes de a mesma chegar à estação. Não era a mesma porta que a minha, pois ela escolhia sempre a seguinte. Enquanto eu escalava as escadas, dois degraus de cada vez e depois um passo meio acelerado, ela subia uma a uma depressa, aumentado depois o seu passo. Ao mesmo tempo que o fazia o seu braço esquerdo acompanhava o movimento, quase como um militar a marchar, enquanto que a sua mão direita segurava firmemente uma pequena mala estilizada. Quase que tudo parecia uma competição entre nós dois, como que um desafio para ver quem chegava ao próximo átrio primeiro.
Por vezes saía na frente, e pelo canto do olho espreitava o reflexo nas lojas da estação para ver quantos passos atrás vinha ela. Quando ela liderava, e já mais descarada, virava a cabeça ora para o lado direito ou para o esquerdo, e mesmo que fosse só para pentear o cabelo o certo é que o meu reflexo era visível. Já no átrio seguinte, sempre que os lugares estavam disponíveis aproveitava para descansar um pouco. Quer ela se sentasse também ou permanecesse de pé, não conseguia evitar pensar como seria apaixonar-me por ela. Lá está, a costela hopeless romantic a vir ao de cima...
Já no átrio seguinte, enquanto o metro não chega é normal que as pessoas procurem um lugar sentado para esperarem. Por norma, nenhum de nós procurou alguma vez um lugar, mas das últimas vezes o oposto foi verdade, naquela fatídica última semana, dois lugares separavam-nos, por fim, na minha última viagem quis o destino que nos sentássemos juntos um do outro. Lembro-me que nesse dia, conforme descíamos as escadas de acesso ao átrio, ela soluçava, e mesmo com música a invadir os meus ouvidos era evidente o seu soluçar. Confesso que achei-lhe piada por que ela tentava evitar dar nas vistas, assim foi impossível eu conter um sorriso. Imaginei mesmo chegar ao pé dela e pregar-lhe um susto para solucionar os seus soluços.
Preso aos meus receios mantive o meu ritmo e conforme ela encontrou um lugar para sentar-se eu fiz-lhe companhia. Não me lembro de sentir-me tão pouco à vontade como naquele momento. Qualquer movimento que fizesse ela reparava logo. Ela por seu lado, que sempre se mantia quieta à espera do metro, pegava no telemóvel, folheava os menus e depois desviava o olhar para o horizonte. Sente-se uma brisa a aproximar, ela levanta-se e dá uns passos em frente enquanto ajusta a roupa enquanto encontra o lugar onde a carruagem irá parar. Ao contrário de mim que opta pela última porta, ela prefere a ante-penúltima. No meio da pessoas vejo-a a escolher um assento e sentar-se, desvio logo o olhar pois é a vez dela procurar-me... A mente vomita todos os palavrões de que se lembra, culpando-me por não ter aproveitado a oportunidade para falar com ela. O que mais me custa é que nem o nome dela irei guardar... Uma estação depois, saio frustrado e triste. Porém, a imagem dela será eterna como o olá que nunca dissemos.