sexta-feira, agosto 29, 2014

Rockabilly gal

Nas últimas quatro semanas vi-me obrigado a dar corda às pernas, isto depois de ter sido atacado pelo azar. Como em tudo o que é mau na vida, existe um período de raiva, depois de frustração e por fim a esperança que renasce das cinzas.

No esforço adicional do dia-a-dia, no vaivém entre casa-trabalho-casa, os rostos com os quais me cruzava começaram a arrendar um lugar na memória. Não tardou muito para começar a reconhecê-los num local específico e a uma determinada hora.

Pela hora da lua, houve um rosto que se destacou dos demais. Um rosto liso, só com um pequeno piercing decorativo, uma pequena poupa rockabilly e uns óculos que lhe davam um aspecto intelectual mas ao mesmo tempo descansavam no seu rosto de forma perfeita e bastante sensual.

A timidez que pensava já ter enterrado no passado deu sinal de vida sempre que o metro parava à minha frente, naqueles milésimos de segundo de espera até a porta se abrir era possível contemplar o interior da carruagem e, quase sempre, naquele específico lugar lá vinha ela sentada, com uma postura firme e direita. Das primeiras vezes não fazia caso para além de ter percebido desde o primeiro dia que ela se destacava dos demais passageiros. Com as repetições dos dias apercebi-me que o olhar dela procurava-me mas logo fugia quando o meu chocava com o dela. Nada de mais se tivermos em conta que o ser humano é desconfiado e por vezes protege-se ao não permitir o contacto de olhares.

Não sei bem porquê, viajei sempre naquela carruagem aquela hora, e cada vez mais notava que o seu olhar, a partir do momento em que pisava a carruagem, focava-se em mim, chegava mesmo a ser intimador ao ponto de ter que olhar para o outro lado da carruagem durante a viagem, por vezes ganhando coragem para procurá-la, sempre receoso de ser apanhado...

Podíamos entrar sempre em estações diferentes, mas a de saída coincidia. Ela tinha por hábito levantar-se primeiro que a maior parte das pessoas e aproximar-se da porta da carruagem antes de a mesma chegar à estação. Não era a mesma porta que a minha, pois ela escolhia sempre a seguinte. Enquanto eu escalava as escadas, dois degraus de cada vez e depois um passo meio acelerado, ela subia uma a uma depressa, aumentado depois o seu passo. Ao mesmo tempo que o fazia o seu braço esquerdo acompanhava o movimento, quase como um militar a marchar, enquanto que a sua mão direita segurava firmemente uma pequena mala estilizada. Quase que tudo parecia uma competição entre nós dois, como que um desafio para ver quem chegava ao próximo átrio primeiro. 

Por vezes saía na frente, e pelo canto do olho espreitava o reflexo nas lojas da estação para ver quantos passos atrás vinha ela. Quando ela liderava, e já mais descarada, virava a cabeça ora para o lado direito ou para o esquerdo, e mesmo que fosse só para pentear o cabelo o certo é que o meu reflexo era visível. Já no átrio seguinte, sempre que os lugares estavam disponíveis aproveitava para descansar um pouco. Quer ela se sentasse também ou permanecesse de pé, não conseguia evitar pensar como seria apaixonar-me por ela. Lá está, a costela hopeless romantic a vir ao de cima...

Já no átrio seguinte, enquanto o metro não chega é normal que as pessoas procurem um lugar sentado para esperarem. Por norma, nenhum de nós procurou alguma vez um lugar, mas das últimas vezes o oposto foi verdade, naquela fatídica última semana, dois lugares separavam-nos, por fim, na minha última viagem quis o destino que nos sentássemos juntos um do outro. Lembro-me que nesse dia, conforme descíamos as escadas de acesso ao átrio, ela soluçava, e mesmo com música a invadir os meus ouvidos era evidente o seu soluçar. Confesso que achei-lhe piada por que ela tentava evitar dar nas vistas, assim foi impossível eu conter um sorriso. Imaginei mesmo chegar ao pé dela e pregar-lhe um susto para solucionar os seus soluços. 

Preso aos meus receios mantive o meu ritmo e conforme ela encontrou um lugar para sentar-se eu fiz-lhe companhia. Não me lembro de sentir-me tão pouco à vontade como naquele momento. Qualquer movimento que fizesse ela reparava logo. Ela por seu lado, que sempre se mantia quieta à espera do metro, pegava no telemóvel, folheava os menus e depois desviava o olhar para o horizonte. Sente-se uma brisa a aproximar, ela levanta-se e dá uns passos em frente enquanto ajusta a roupa enquanto encontra o lugar onde a carruagem irá parar. Ao contrário de mim que opta pela última porta, ela prefere a ante-penúltima. No meio da pessoas vejo-a a escolher um assento e sentar-se, desvio logo o olhar pois é a vez dela procurar-me... A mente vomita todos os palavrões de que se lembra, culpando-me por não ter aproveitado a oportunidade para falar com ela. O que mais me custa é que nem o nome dela irei guardar... Uma estação depois, saio frustrado e triste. Porém, a imagem dela será eterna como o olá que nunca dissemos.

Paixões secretas

Viver constantemente apaixonado não é modo de vida para qualquer uma pessoa. É certo que tem o seu lado positivo e apetecível, só que implica aceitar também o seu oposto, aprender a lidar com expectativas frustradas e sonhos não concretizados é tarefa dura. É capaz de ser um peso por demais incómodo, difícil de carregar em troca de momentos fugazes de plena satisfação. Embora seja tarefa dolorosa, a partir do momento em que a dor é aceite como um processo natural e evolutivo, é possível melhor adormecê-la e apreciar tudo o que de bom é-nos oferecido por esse estado quase enamorado.

Se uma pessoa é a faísca que precisamos para esboçar um sorriso, então não existe motivo algum para evitá-la ou auto-julgarmos-nos, com direito a pena de culpado. Se sentimos o acelerar do coração e a respiração ofegante sempre que falamos com ela e, até tropeçamos nervosamente nas palavras, então para quê ficar num canto sozinho, em silêncio e a suspirar?

É certo que apesar de sonhar com contos de fadas, são estas paixões que, por vezes difíceis de serem consideradas somente platónicas, fazem esquecer amarguras passadas e acreditar que novas e melhores portas se vão abrir. Já me ouvi dizer que tudo isto não passa de sentimentos passageiros, ou pelo menos gostaria de pensar que assim o é... O facto de não existir qualquer possibilidade de os sentimentos materializarem-se numa relação a dois, assegura que uma pessoa aceite dançar embora jamais tire os pés do chão e se deixe levar pela imaginação. É muito complicado moldar em palavras a confusão que atormenta a minha mente.

Às vezes gostaria de ser o espectador que vê tudo à distância e perceber se faço por cair no óbvio, de tanto beicinho que para ali deve morar. Tenho perfeita consciência que estou sempre disponível para lhe fazer companhia nas pausas do dia-a-dia, que estou sempre atento ao que a rodeia mas também que abuso das palavras e dificilmente consigo colocar um ponto final nelas! Um pouco como não a quisesse perder para o resto do dia. Depois, aquele momento em que a encruzilhada nos obriga a percorrer trilhos diferentes, oferecer um simples "até já" é penoso demais!

A real questão no meio de tudo isto é se é perceptível este comportamento alterado, a ela ou a quem nos observar de perto. Confesso o embaraço que sinto se assim o é perceptível, ao mesmo tempo que um rosado quente preenche a minha face e marca-o vincado. São estes momentos que me fazem pensar que ainda sou um jovem inconsciente, e até um pouco ingénuo, que se deixa levar pelo encanto de musas e paixões impossíveis.

Como se de um baralho de cartas se tratasse, nunca se sabe a carta que sairá, porém uma pessoa nunca perde a esperança que a carta certa seja revelada, tal como não perde a esperança que a paixão secreta seja de alguma forma descoberta e correspondida.

É tão bom viver neste estado apaixonado, poder chegar a casa e parar, e nesse instante visualizar o seu rosto, vê-la sorrir, ou utilizar aquela expressão que nos faz rir ou a outra que nos aquece o coração. Como que se admirássemos a lua lá no alto, deixamos a cabeça cair encostada na cadeira, a imaginação cega-nos e começamos a rever o filme do dia que ali caminhava para o seu término. É tudo tão sereno e maravilhoso. Pouco importa que aos poucos a ansiedade dê sinais de vida e logo voltamos à realidade, um semblante já não tão alegre pela sina da vida remeter-nos somente para a memória.

Procuramos tanto algo a que possamos chamar felicidade, só que nessa busca não nos apercebemos que já podemos ser felizes. Queremos tanto o que é impossível que não nos apercebemos o quanto alguma coisa pode ser possível. Eu, que gosto tanto de sonhar com aquele momentos perfeitos, não me apercebo que já ficaram para trás e que as correntes da memória só me impedem de avançar por que assim quero. Talvez, o melhor sonho da felicidade que procuramos é sem duvida viver um grande momento, junto da pessoa que sabe viver os pequenos instantes.