sexta-feira, novembro 30, 2018

Um passo de dança

O que o tempo faz a mente esquecer, o coração sempre lembra. Esquecemos o que é saborear os lábios dela. Esquecemos como é percorrer os seus longos cabelos, gentilmente, com a nossa mão tremida, como se frágeis fios de ouro se tratassem, enquanto ela se esconde entre eles. Como andar de mãos entrelaçadas, bem apertadas, como a vida disso dependesse. Esquecemos como é trocar olhares sem ser preciso traduzir por palavras o que sentem ou parecem dizer.

Esquecemos tudo isso mas o coração acaba sempre por lembrar. Passamos anos sem o sentir, até despertar para o sorriso de uma bela flor, como que até aquele momento tivesse hibernado e agora, aquecido pelo sol reflectido no seu rosto, despertasse para uma nova primavera. E quanto mais o coração lembra mais vida ganha, mais forte o pulsar, mais rápida a respiração...

Admiro aquela linda flor e vivo fascinado como dança e rodopia ao vento. Parece exibir-se, cativando o olhar mais atento, mas rapidamente dá um passo atrás. O tempo proporciona uma aproximação e ela acena, como que dando permissão. O feitiço logo quebra com a verdade das palavras doces, agora amargas. A calma finalmente assenta. Aceita-se a realidade e na confiança um do outro deposita-se o futuro. A dança dela parece contar uma história de amor, mas em que porta se esconde o seu final feliz?

Hipnotizado, o coração ocupa o lugar da razão. A fonte do raciocínio teve o seu desastrado reino e nada proporcionou. À noite e à distância, a sua delicada voz, tremida por algum nervosismo mas também cuidado, parece sussurrar-me "miarma... miarma...". Estarei de tal maneira louco, ao ponto de me perder na tradução, ou estarei somente a ouvir o que ela ainda não diz? 

As noites são agora mais longas, os sonhos já não me acorrentam como que me arrastando para falsas realidades, os olhos, por seu lado, recusam-se a adormecer. Viajar para as longínquas terras do sono significa perdê-la até ao acordar e isso é roubar-me da sua dança.

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