quarta-feira, junho 12, 2019

Flor de Lótus

Ainda me lembro da primeira vez. Naquela sala, distante, uma rapariga entra e senta-se, meio envergonhada pela novidade de tudo a que rodeia. Na curiosidade, aperto os olhos para ver melhor, como que se os óculos não mais ajudassem a fazer sentido. Não deslumbro o seu rosto, coberto pelos seus cabelos. Na impossibilidade de fazer razão da situação, começa aquele murmurinho com quem está ao lado. "Quem é?", "É nova aqui?", "De onde veio?"...

Saio dali uma vez livre da obrigação e, sem quase emitir o mais pequeno ruído, percorro o corredor para procurar respostas para tanta curiosidade. Noto que por mais cuidado que tente ter, ela apercebe-se da sombra que atravessa a luz e, com um breve cruzar de olhos, desvia novamente a atenção para o trabalho e sigo como uma criança apanhada a roubar uma bolacha da cozinha.

Certo foram os dias seguintes, muitos murmurinhos, muitas questões, muitas incertezas e, recordo-me, que ainda demorou umas boas semanas até que finalmente tivesse a possibilidade de a conhecer, embora por essa hora já sabia mais dela do que ela de mim. Pelo menos deduzo assim ser. 

A verdade pode ler-se nos olhos e, ai de mim que sempre olhei todos directamente naqueles pequenos espelhos, fico sem reacção ao perceber que a força falha quando o seu olhar mexe connosco, de tal maneira que a timidez volta a ter dezesseis anos.

Viver e trabalhar rodeado de diferentes belezas nem sempre é fácil, pois o pecado transporta-nos para mil fantasias. Contudo, não passa de brincadeiras de adulto feito jovem inconsciente, guardadas dentro de nós, sabendo que os limites existem e qualquer desejo é digno da filosofia de Platão. Mas no meio deste éden, existe sempre algo que nos toca na alma. São pequenos gestos, um sorriso mais timido, uma provocação mais picante, logo seguido de um aviso de brincadeira mas que, na realidade, não passam apenas de verdades sentidas.

Sei que descartei muitas ideias, e até provocações de pessoas mais próximas, mas estava eu cego perante a evidência nua. Não é novidade para mim! Esta cegueira de morcego acompanha-me deste muito novo, e por mais que a idade aprenda a ver melhor, muito passa-me ao lado. Os sinais estavam todos lá, desenhamos ao mais pequeno pormenor, porém não soube ou quis interpretá-los.

Interpretá-los. Sim, sem dúvida! Não só por estar perdido na tradução das palavras e acções, mas porque o coração ainda perseguia algo que fazia meses que tinha fugido, que jamais olhou para trás ou deu conversa e, não via maneira de colocar um ponto no fim daquela história triste. Custou ultrapassar e admitir que sonhos pintados jamais viriam a luz do dia. 

Foi preciso viver a ausência para perceber que a partilha de memórias de uma viagem eram, sem dúvida alguma, como um estender de uma mão a convidar a melhor conhecer uma pessoa especial. A descobrir um pouco mais dela, mesmo que vozes mais próximas pareciam evidenciar que a reserva não seria tão grande como eu a via. Na incerteza procurei desvanecer qualquer nuvem que parecia querer formar-se e, ao encontrar a verdade que tanto ansiava, pura alegria na confiança depositada e na partilha de vivências. 

O regresso trouxe aquela surpresa prometida de receber um carinho que nunca mais me abandonou. Foi como que um despertar para uma realidade que apenas já só conhecia dos sonhos. Uma importância que já não sabia reconhecer depois de atravessar um deserto que parecia não ter fim. Desde aí, as linhas brancas de um livro ganharam cor e começou a escrever-se uma nova história. E é nesses momentos, em que finalmente a ficção termina, quando os sonhos ganham uma realidade onde, a principio, as palavras atropelam-se, por vezes sem sentido algum, onde qualquer embaraço termina com um pequeno sorriso ou gargalhada, sem darmos importância alguma.

As últimas duas semanas mexeram com o coração, pois embora o nunca lhe tenha dito, senti sempre o seu olhar quando ela pensava que dava atenção a outra pessoa e, naquele jantar, senti-o por uma ou duas ocasiões. Talvez a bebida do deuses tenha favorecido o atrevimento, e mesmo que a tenha visto fugir cedo, não consegui fechar os olhos sem a certeza dos seus pensamentos.

Poderíamos ter mais dez ou vinte anos, mas não devemos ter sido mais jovens do que naquele momento. Apercebi-me disso, no dia seguinte, ao relembrar as palavras trocadas quando a lua já flutuava bem alta. Uma mistura de atrevimento e vergonha que nos faz querer esconder debaixo dos lençóis, ao mesmo tempo que rimos da surpresa e batemos com os pés de excitação, intercaladente, como se nadássemos a toda a velocidade.

Mas esta segunda.... Ai!... Só consigo suspirar sempre que volto àquele momento e os olhos iluminam-se emocionados. Foi tudo tão mágico, a simplicidade, os risos, o lugar, as memórias, a cumplicidade, a novidade e, em especial, sob o escuro da noite, a confidência.

Sei que sigo a duzentos quilómetros hora, louco com a pressa de chegar, bebado de sentimentos, mas caminhas devagar, pé ante pé, com precaução e contenção. Páro. Espero-te. Acredito que o balanço será alcançado com as sementes que cultivámos, com tempo e paciência, tudo para que uma bela flor possa ganhar raízes, desabrochar e crescer forte.

sexta-feira, novembro 30, 2018

Um passo de dança

O que o tempo faz a mente esquecer, o coração sempre lembra. Esquecemos o que é saborear os lábios dela. Esquecemos como é percorrer os seus longos cabelos, gentilmente, com a nossa mão tremida, como se frágeis fios de ouro se tratassem, enquanto ela se esconde entre eles. Como andar de mãos entrelaçadas, bem apertadas, como a vida disso dependesse. Esquecemos como é trocar olhares sem ser preciso traduzir por palavras o que sentem ou parecem dizer.

Esquecemos tudo isso mas o coração acaba sempre por lembrar. Passamos anos sem o sentir, até despertar para o sorriso de uma bela flor, como que até aquele momento tivesse hibernado e agora, aquecido pelo sol reflectido no seu rosto, despertasse para uma nova primavera. E quanto mais o coração lembra mais vida ganha, mais forte o pulsar, mais rápida a respiração...

Admiro aquela linda flor e vivo fascinado como dança e rodopia ao vento. Parece exibir-se, cativando o olhar mais atento, mas rapidamente dá um passo atrás. O tempo proporciona uma aproximação e ela acena, como que dando permissão. O feitiço logo quebra com a verdade das palavras doces, agora amargas. A calma finalmente assenta. Aceita-se a realidade e na confiança um do outro deposita-se o futuro. A dança dela parece contar uma história de amor, mas em que porta se esconde o seu final feliz?

Hipnotizado, o coração ocupa o lugar da razão. A fonte do raciocínio teve o seu desastrado reino e nada proporcionou. À noite e à distância, a sua delicada voz, tremida por algum nervosismo mas também cuidado, parece sussurrar-me "miarma... miarma...". Estarei de tal maneira louco, ao ponto de me perder na tradução, ou estarei somente a ouvir o que ela ainda não diz? 

As noites são agora mais longas, os sonhos já não me acorrentam como que me arrastando para falsas realidades, os olhos, por seu lado, recusam-se a adormecer. Viajar para as longínquas terras do sono significa perdê-la até ao acordar e isso é roubar-me da sua dança.

sexta-feira, agosto 29, 2014

Rockabilly gal

Nas últimas quatro semanas vi-me obrigado a dar corda às pernas, isto depois de ter sido atacado pelo azar. Como em tudo o que é mau na vida, existe um período de raiva, depois de frustração e por fim a esperança que renasce das cinzas.

No esforço adicional do dia-a-dia, no vaivém entre casa-trabalho-casa, os rostos com os quais me cruzava começaram a arrendar um lugar na memória. Não tardou muito para começar a reconhecê-los num local específico e a uma determinada hora.

Pela hora da lua, houve um rosto que se destacou dos demais. Um rosto liso, só com um pequeno piercing decorativo, uma pequena poupa rockabilly e uns óculos que lhe davam um aspecto intelectual mas ao mesmo tempo descansavam no seu rosto de forma perfeita e bastante sensual.

A timidez que pensava já ter enterrado no passado deu sinal de vida sempre que o metro parava à minha frente, naqueles milésimos de segundo de espera até a porta se abrir era possível contemplar o interior da carruagem e, quase sempre, naquele específico lugar lá vinha ela sentada, com uma postura firme e direita. Das primeiras vezes não fazia caso para além de ter percebido desde o primeiro dia que ela se destacava dos demais passageiros. Com as repetições dos dias apercebi-me que o olhar dela procurava-me mas logo fugia quando o meu chocava com o dela. Nada de mais se tivermos em conta que o ser humano é desconfiado e por vezes protege-se ao não permitir o contacto de olhares.

Não sei bem porquê, viajei sempre naquela carruagem aquela hora, e cada vez mais notava que o seu olhar, a partir do momento em que pisava a carruagem, focava-se em mim, chegava mesmo a ser intimador ao ponto de ter que olhar para o outro lado da carruagem durante a viagem, por vezes ganhando coragem para procurá-la, sempre receoso de ser apanhado...

Podíamos entrar sempre em estações diferentes, mas a de saída coincidia. Ela tinha por hábito levantar-se primeiro que a maior parte das pessoas e aproximar-se da porta da carruagem antes de a mesma chegar à estação. Não era a mesma porta que a minha, pois ela escolhia sempre a seguinte. Enquanto eu escalava as escadas, dois degraus de cada vez e depois um passo meio acelerado, ela subia uma a uma depressa, aumentado depois o seu passo. Ao mesmo tempo que o fazia o seu braço esquerdo acompanhava o movimento, quase como um militar a marchar, enquanto que a sua mão direita segurava firmemente uma pequena mala estilizada. Quase que tudo parecia uma competição entre nós dois, como que um desafio para ver quem chegava ao próximo átrio primeiro. 

Por vezes saía na frente, e pelo canto do olho espreitava o reflexo nas lojas da estação para ver quantos passos atrás vinha ela. Quando ela liderava, e já mais descarada, virava a cabeça ora para o lado direito ou para o esquerdo, e mesmo que fosse só para pentear o cabelo o certo é que o meu reflexo era visível. Já no átrio seguinte, sempre que os lugares estavam disponíveis aproveitava para descansar um pouco. Quer ela se sentasse também ou permanecesse de pé, não conseguia evitar pensar como seria apaixonar-me por ela. Lá está, a costela hopeless romantic a vir ao de cima...

Já no átrio seguinte, enquanto o metro não chega é normal que as pessoas procurem um lugar sentado para esperarem. Por norma, nenhum de nós procurou alguma vez um lugar, mas das últimas vezes o oposto foi verdade, naquela fatídica última semana, dois lugares separavam-nos, por fim, na minha última viagem quis o destino que nos sentássemos juntos um do outro. Lembro-me que nesse dia, conforme descíamos as escadas de acesso ao átrio, ela soluçava, e mesmo com música a invadir os meus ouvidos era evidente o seu soluçar. Confesso que achei-lhe piada por que ela tentava evitar dar nas vistas, assim foi impossível eu conter um sorriso. Imaginei mesmo chegar ao pé dela e pregar-lhe um susto para solucionar os seus soluços. 

Preso aos meus receios mantive o meu ritmo e conforme ela encontrou um lugar para sentar-se eu fiz-lhe companhia. Não me lembro de sentir-me tão pouco à vontade como naquele momento. Qualquer movimento que fizesse ela reparava logo. Ela por seu lado, que sempre se mantia quieta à espera do metro, pegava no telemóvel, folheava os menus e depois desviava o olhar para o horizonte. Sente-se uma brisa a aproximar, ela levanta-se e dá uns passos em frente enquanto ajusta a roupa enquanto encontra o lugar onde a carruagem irá parar. Ao contrário de mim que opta pela última porta, ela prefere a ante-penúltima. No meio da pessoas vejo-a a escolher um assento e sentar-se, desvio logo o olhar pois é a vez dela procurar-me... A mente vomita todos os palavrões de que se lembra, culpando-me por não ter aproveitado a oportunidade para falar com ela. O que mais me custa é que nem o nome dela irei guardar... Uma estação depois, saio frustrado e triste. Porém, a imagem dela será eterna como o olá que nunca dissemos.

Paixões secretas

Viver constantemente apaixonado não é modo de vida para qualquer uma pessoa. É certo que tem o seu lado positivo e apetecível, só que implica aceitar também o seu oposto, aprender a lidar com expectativas frustradas e sonhos não concretizados é tarefa dura. É capaz de ser um peso por demais incómodo, difícil de carregar em troca de momentos fugazes de plena satisfação. Embora seja tarefa dolorosa, a partir do momento em que a dor é aceite como um processo natural e evolutivo, é possível melhor adormecê-la e apreciar tudo o que de bom é-nos oferecido por esse estado quase enamorado.

Se uma pessoa é a faísca que precisamos para esboçar um sorriso, então não existe motivo algum para evitá-la ou auto-julgarmos-nos, com direito a pena de culpado. Se sentimos o acelerar do coração e a respiração ofegante sempre que falamos com ela e, até tropeçamos nervosamente nas palavras, então para quê ficar num canto sozinho, em silêncio e a suspirar?

É certo que apesar de sonhar com contos de fadas, são estas paixões que, por vezes difíceis de serem consideradas somente platónicas, fazem esquecer amarguras passadas e acreditar que novas e melhores portas se vão abrir. Já me ouvi dizer que tudo isto não passa de sentimentos passageiros, ou pelo menos gostaria de pensar que assim o é... O facto de não existir qualquer possibilidade de os sentimentos materializarem-se numa relação a dois, assegura que uma pessoa aceite dançar embora jamais tire os pés do chão e se deixe levar pela imaginação. É muito complicado moldar em palavras a confusão que atormenta a minha mente.

Às vezes gostaria de ser o espectador que vê tudo à distância e perceber se faço por cair no óbvio, de tanto beicinho que para ali deve morar. Tenho perfeita consciência que estou sempre disponível para lhe fazer companhia nas pausas do dia-a-dia, que estou sempre atento ao que a rodeia mas também que abuso das palavras e dificilmente consigo colocar um ponto final nelas! Um pouco como não a quisesse perder para o resto do dia. Depois, aquele momento em que a encruzilhada nos obriga a percorrer trilhos diferentes, oferecer um simples "até já" é penoso demais!

A real questão no meio de tudo isto é se é perceptível este comportamento alterado, a ela ou a quem nos observar de perto. Confesso o embaraço que sinto se assim o é perceptível, ao mesmo tempo que um rosado quente preenche a minha face e marca-o vincado. São estes momentos que me fazem pensar que ainda sou um jovem inconsciente, e até um pouco ingénuo, que se deixa levar pelo encanto de musas e paixões impossíveis.

Como se de um baralho de cartas se tratasse, nunca se sabe a carta que sairá, porém uma pessoa nunca perde a esperança que a carta certa seja revelada, tal como não perde a esperança que a paixão secreta seja de alguma forma descoberta e correspondida.

É tão bom viver neste estado apaixonado, poder chegar a casa e parar, e nesse instante visualizar o seu rosto, vê-la sorrir, ou utilizar aquela expressão que nos faz rir ou a outra que nos aquece o coração. Como que se admirássemos a lua lá no alto, deixamos a cabeça cair encostada na cadeira, a imaginação cega-nos e começamos a rever o filme do dia que ali caminhava para o seu término. É tudo tão sereno e maravilhoso. Pouco importa que aos poucos a ansiedade dê sinais de vida e logo voltamos à realidade, um semblante já não tão alegre pela sina da vida remeter-nos somente para a memória.

Procuramos tanto algo a que possamos chamar felicidade, só que nessa busca não nos apercebemos que já podemos ser felizes. Queremos tanto o que é impossível que não nos apercebemos o quanto alguma coisa pode ser possível. Eu, que gosto tanto de sonhar com aquele momentos perfeitos, não me apercebo que já ficaram para trás e que as correntes da memória só me impedem de avançar por que assim quero. Talvez, o melhor sonho da felicidade que procuramos é sem duvida viver um grande momento, junto da pessoa que sabe viver os pequenos instantes.

quarta-feira, dezembro 25, 2013

A doce balança da paixão salgada.

São poucos, tão poucos e tão pequenos, os dias que ainda faltam viver deste 2013. Nestes últimos dias tenho viajado no tempo, em espécie de balanço, a tentar perceber se tenho motivos para sorrir ou para chorar. É uma viagem que faço na memória, uma viagem longa e difícil. 

O início do ano foi ingrato, com um arrastar de sentimentos que transbordaram do ano morto para este, carregado de dúvidas, de paixão, de saudades, de tristeza, de sentimentos inconstantes e revoltados. Podemos afastar-nos das pessoas mas é tão difícil apagá-las da nossa vida, ainda para mais quando sentimos que o ponto final ainda é uma virgula à espera de mais palavras e novas histórias. Foi um batalha cruel que só com ajuda indirecta foi ganha, ou assim quero acreditar, porque as dúvidas permanecem. 

Porém, a primavera ofereceu-me uma flor que trouxe de volta a alegria à minha vida. Senti-me de novo vivo e cheio de energia, capaz de lutar pela causa mais impossível, com a coragem de saltar da nuvem mais alta sem pára-quedas, sem medo para enfrentar a realidade. Ainda consigo recordar-me daquele dia em que o cansaço não foi entrave para a paixão sem limites, o susto que se seguiu e a nova história que se escreveu. Hoje, ainda lamento que o que a primavera ofereceu, aquela bela flor, tenha murchado e tivesse desaparecido. Não foi fácil, talvez por isso ainda me lembro, sem esforço algum, de todos aqueles dias em que a reguei com amor e carinho.

Conheço-me bem, sei que vivo constantemente enamorado por caminhares que nem sequer conheço ou, se o indício é certo a pequena obsessão é alimentada sempre que o olhar recai sobre ela. Neste preciso momento consigo mesmo visualizar a maneira com esboça um sorriso e, quase que sem dificuldade alguma, se questionado, sei afirmar se é sincero ou por conveniência. São pequenos sonhos que mantêm o coração a bater pelas melhores razões e iludido enquanto que o vazio não é devidamente acondicionado por motivos mais reais.

Já o verão transpirava a algum tempo quando descobri a salvação para o meu caseirismo compulsivo. Numa mistura de voluntariado com a paixão pela ficção científica conheci um grupo fabuloso de pessoas, as mesmas pessoas que me acolheram como parte de uma família mundial e ajudaram-me em todos os passos até finalmente ter um retorno gratificante a todos os níveis. Sem dúvida que esta pequena revolução nesta minha vida seja grande parte da minha alegria no ano que está para chegar.

Deste ano levo comigo uma lição para a vida. Cresci com os meus erros e as minhas escolhas. Só isso permite-me olhar para o futuro com uma grande esperança, acima de tudo com um sentimento de confiança que não era visível em mim faz uns bons cinco anos. Se os anos e os números não me atraiçoam, prevejo um ano cheio de camaradagem, mas mais do que isso, um ano em que o amor conquistará um lugar na minha vida. Mais que tudo que assim o seja.

sábado, setembro 28, 2013

Insaciável Sabor do Amor

Qual a hipótese de as peças encaixarem, uma atrás da outra, de forma harmoniosa,como sempre a mente planeou cegamente, mesmo sem grande esperança de ver um puzzle ganhar vida? Foi preciso uma certa coragem para colocar a primeira peça em jogo, afinal a vergonha de falar com a morena que faz os meus olhos sorrir, claramente enfeitiçados por uma beleza ignorada por tantos (ou talvez não), que deixa o coração agitado numa ânsia desenfreada, a voz a tremer e as palavras convulsivamente engasgadas pelos nervos. 

Tentar passar despercebido e apresentar a proposta que me arrastou até ali, foi projecto de um bom número de dias a tentar escrever no argumento digno de um best-seller! Talvez pudesse estar a exagerar, mas sem dúvida que demorei para lá chegar! Mascarado de inocente pedido, a vontade de ouvir uma só palavra, em tom de resposta, a uma pergunta que nunca foi feita era expectativa meio frustrada.

A verdade é que a recepção que obtive foi melhor do que poderia alguma vez imaginar e, embora permanecesse ali, descontraído, ainda que a gaguejar ligeiramente, sob o olhar de um grupo que me conhece há muito tempo, certo é que lá no fundo disparava foguetes em puro êxtase! No fim do dia sabia que quando o sol nascesse de novo ia brilhar forte e, tal como um farol que orienta as embarcações na escuridão, sei que seria a minha estrela lá bem no alto, desenhando uma rota segura até ao porto onde ela habitava. Ao chegar motivo suficiente para partilhar mais do que uma saudação banal e fria.

Quando paro para pensar dou comigo a falar sozinho, não precisamente em frases bem construídas mas palavras soltas ou mesmo só sons de quase histeria, a bater palmas sem querer acreditar, a procurar pontos no tecto onde fixar o olhar, inocentemente esboçando um sorriso de lábios fechados, procurando revelar o rolo de fotografias que o olhar tinha retratado durante o dia e preservado de forma segura na mente. É tão saboroso poder sentir próximo quem não está presente...

Será que se apercebe do meu gaguejar atrapalhado, meio infantil? Não o sei, talvez até o ache estranho e a assuste... A verdade é que tenho tempo para o perder, por completo, ainda para mais quando não é parte da minha verdadeira pessoa! Ao chegar esse dia sei que estarei perfeitamente à vontade na sua presença, sem sentir que poderei estar a ser avaliado ou a tentar manter um assunto só para ter a oportunidade de a tentar conhecer e descodificar. 

Ai estas situações incómodas! Valem mil e um suspiros perdidos... Esta necessidade de obter respostas a perguntas nunca feitas, proibidas mesmo por desvendarem as reais intenções... Enfim... Suspiro...

Baby steps, baby steps!

sábado, agosto 10, 2013

Sete dias de Inferno, dois segundos de Paraíso

Puta de semana! Acho que só assim poderei melhor descrever os sete dias de trabalho, mais horas extraordinárias, que agora terminam! É assustador quando o prazer que temos pelo que decidimos fazer na vida como carreira se transforma em pesadelo puro e duro. É ainda mais assustador quando o que me chega às mãos é um exemplo do que se aprende num qualquer curso de audiovisuais, como sendo o que nunca se deve fazer. Fosse só isso e até seria tolerável, mas há mais! Sei bem que são muitos os que preferem bater à minha porta, mesmo que tenham de percorrer um corredor inteiro para lá chegar, em vez de pararem na primeira ou segunda sala. Sei que isso se deve à opção de trabalharem comigo em prejuízo de colegas que, por seu lado preferem comportar-se como robôs e executarem tudo de forma básica, sem grande criatividade, mas também é verdade que alguns são os que rapidamente fogem da sala quando alguém lhes bate à porta, oferecendo uma desculpa qualquer para se ausentarem, obrigando assim os jornalistas a esperar ou procurar outro colega. Bem, nem tudo é mau, também é verdade que preferem trabalhar comigo porque a boa disposição também é importante para a harmonia no trabalho, já a rapidez de concretização e independência nas opções de edição permite confiar num produto final concluído a tempo e com qualidade.

Por tudo isto é que as grandes semanas, não pela magnificência das mesmas mas sim pela duração, acabam por ser penosas! Modéstia à parte, todas as pessoas correm para a minha sala e a carga de trabalho acaba por desgastar uma pessoa, ainda mais quando olhamos, através das paredes de vidro, para o colega do lado a jogar no computador ou simplesmente a ver televisão. Aí o meu mau humor e sentimento de revolta vem ao cima! Claro que as pessoas acabam por não compreender como um indivíduo sempre tão bem disposto transforma-se numa pessoa fria e cruel. Contudo, a verdade é que não é de propósito, ou algo que se pareça, é sim um modo de defesa, até porque ao fim de alguns minutos, mesmo que contrariado, a boa disposição volta a reinar no local de trabalho.

Infelizmente, não consigo ser um mau profissional como alguns dos meus colegas, não consigo recusar trabalho com a facilidade com que eles o fazem, afinal estou ali para executar uma tarefa, pela qual recebo um montante ao fim do mês. Por vezes digo que se ganhássemos à peça então havia muita boa gente que ia para casa só com uns trocos e eu com a carteira recheada...

Sexta-feira foi longa, muito longa, começar às onze horas da manhã, a pedido das chefias, e percorrer o dia inteiro até às nove e meia da noite, para além da hora que tinha para sair, custou! O esforço todo acabou por ser compensado por um gesto pequeno mas de importância grandiosa, poder ir para casa a pensar num momento mais intimo, pelo menos aos meus olhos, vivido minutos antes de picar o ponto. Esse pequeno gesto de agradecimento transportou-me até as nuvens e, conduzi até casa de sorriso largo e feliz, sem sequer me aperceber que as folgas tinham começado.

terça-feira, agosto 06, 2013

A empatia da confidência

Às vezes precisamos deitar tudo cá para fora, sem data ou hora marcada, sem local marcado e, por vezes, com a pessoa que por mais perto está naquela altura. Gosto de pensar que sou pessoa de bom ouvido, talvez por assim ser já não me surpreendo quando alguém se senta ao meu lado e expele tudo o que lhe vai na alma. A cada palavra falada outras duas apressam-se a serem contadas, seja por desgosto, paixão, ansiedade... Certo é que não procuramos somente desabafar, porque mesmo que não exista coragem para pedir um conselho as pessoas esperam ouvir palavras sábias.

Será sempre fácil opinar quando a outra pessoa não passa de um conhecido ou colega, quase sempre devido ao fraco relacionamento emocional que existe entre ambas as partes, agora quando nos preocupamos com o outro não é tão simples, é como caminhar por uma estrada escura e desconhecida, sempre com o medo de nos perdermos ou cair no erro de uma má escolha, isto é, o não querer mal aconselhar a pessoa.

É sempre difícil formar juízos somente pelo que nos é contado, afinal de contas existem sempre duas versões da mesma história e, na impossibilidade de conhecer parte dessa história, os seus motivos e acções que se escondem por detrás do alvo da conversa, acabamos sempre por meter o dedo numa ferida aberta sem certeza de agravar ou não a situação.

Apesar de todos esses factores adversos, a experiência é a resposta a todas as questões e nas coincidências, que não o são, as respostas formam-se de palavras conselheiras e amigas.

Confesso que obtenho uma certa satisfação ao estender a mão a alguém, ainda mais quando no dia seguinte vejo um sorriso por entre os lábios da pessoa. Recentemente, senti-me feliz por ver que as minhas palavras, mesmo que tremidas, fizeram efeito e deixaram que o sono pudesse regressar à vida de uma pessoa que tanto o procurava.

Não que seja especificamente sobre esta conversa, Henry Ford disse um dia que "um idealista é uma pessoa que ajuda a prosperar", ao lembrar-me disso acho que tenho muito de idealista e, sempre que ajudo alguém estou a batalhar para que tenha uma vida mais decente, mais bela e mais nobre.

segunda-feira, julho 29, 2013

Sangue do meu sangue.

É um gesto maravilhoso, não haja dúvida, o simples acto de uma mãe permitir que se pegue ao colo a sua mais que tudo, não só é uma prova de coragem mas acima de tudo de confiança. Pessoalmente, caso estivesse na sua posição acho que só a arrancando dos meus braços...

Conheci-a com uma semana de vida, frágil como uma pétala de um malmequer, ainda de olhar muito tímido para o mundo, sem saber a sorte de ter quem tem a cuidar dela. Tão frágil que somente passei o dedo indicador por debaixo da sua mão para sentir aquele reflexo de quem se agarra à vida com toda a sua força.

Hoje, passados sete meses, encontrei uma menina já bem mais crescida, de sorriso largo e olhos esbugalhados, em suma um verdadeiro doce de pessoa! Tê-la ao colo fez-me viajar até aos meus treze anos, quando carregava nos meus braços o meu irmão mais novo. Contudo, hoje é diferente, o desejo de ser pai provoca um misto de sentimentos perante a beleza de uma nova e ainda pequena vida. Por um lado, a alegria de estar perante um bebé e poder pegá-lo ao colo, brincar com ele, fazer palhaçadas em troca de um sorriso, dá-lhe um biberon ou até uma bolacha, é tudo muito atraente, super enriquecedor e, ao mesmo tempo, justifica todas as batalhas que se lutaram para atingir aquele momento de felicidade. Esse é sem dúvida o lado bom! 

Infelizmente, nem tudo são rosas, o coração acaba por apertar quando a mente desperta para a (ainda) dura realidade, o facto de não ser pai entristece-me muito, ainda mais quando num acto pessoal e egoísta vejo amigos e colegas com as suas pequenas crias... Quem me conhece sabe bem que os meus adoráveis gatinhos são como filhos e, é verdade que vibro quando estou com eles e observo-os a brincar, ou a pedir mimos ou até mesmo para comer, mas... Não são sangue do meu sangue, talvez seja uma reacção instintiva e animal mas parte de mim deseja ver um descendente meu nascer e crescer. Carregar nos ombros o nome de família e as histórias dos pais e avós. 

Sei bem quem gostava de ver como mãe dos meus filhos, mas também sei que a possibilidade de isso acontecer é bem difícil, recusando porém a total impossibilidade! Afinal a vida dá grandes voltas e acaba por nos surpreender. Independentemente do que o destino possa reservar, sei que quando o momento chegar nada mais na vida me fará feliz, por um lado por ter a meu lado uma mulher extraordinária, por outro por ver o fruto do nosso amor como sendo a mais bela flor do jardim,  o sol das nossas vidas.

domingo, julho 14, 2013

Garota de São Paulo

"Foi realmente uma viagem encantadora e você é como achei que seria: gentil, atencioso, divertido, uma graça (como dizemos no Brasil), um homem especial."

As palavras não me pertencem, por isso espero que ao violar a privacidade de um acto tão lindo não crie nenhuma espécie de embaraço ao seu remetente...

A verdade é que nunca aprendi a reagir a palavras tão doces, especialmente dedicadas à minha pessoa. É, provavelmente, um dos poucos gestos que me deixam perdido num vasto e silencioso oceano, sem saber o que dizer ou como me comportar. Estivesse perante um espelho e certamente dava comigo a corar que nem um tomate bem maduro...

Faz uma semana que a amizade de uns longos cinco anos permitiu oferecer, pela primeira vez, um olá e um abraço olhos nos olhos. É difícil não recordar dois provérbios, tão gastos e quase utópicos, que retratam da melhor maneira o desejo de quem já se conhece à tanto tempo. Lá diz o povo que quem espera sempre alcança, e que a esperança é a última a morrer. Mais que nunca tenho provas da veracidade dessas palavras, mais que nunca sei que elas não existem numa espécie de vácuo de simbolismo humano.

Ainda me lembro quando uma menina, expressão tão tipicamente minha para descrever quem me é próximo e querido, enviou-me uma mensagem a comentar que me vinha visitar. Bem, verdade seja dita, a sua visita não tinha como principal objectivo bater à minha porta, no meio dessa viagem existia a possibilidade de conhecer a voz familiar que, durante uma mão cheia de anos, aprendeu a reconhecer e confiar. O único senão é que ainda faltava um ano mais para isso ser uma realidade desejada...

Demorou e, demorou, demorou mas quando chegou o dia D toda a espera tinha sido merecida! Pude testemunhar a bondade que sempre transpareceu ao longe, ver o sorriso que só tinha sido sentido do outro lado do monitor, o olhar sincero e real, enfim, todos os pequenos pormenores que perfaziam uma grande amiga e um grande ser humano! Confesso que só não esperava que toda esta grandeza encaixasse tão bem numa mulher da sua altura, porque à distância nunca equacionei o quanto media... Mas, era irrelevante, pouco interessava, o momento era de felicidade.

Fiz questão de dar a conhecer um segredo bem escondido à beira rio, excelente comida e deliciosas bebidas, tudo com toque italiano, servido pela simpatia de quem gosta do que faz. A noite estava apetecível, a lua nascia vermelha do outro lado da margem, como se ardesse de paixão, a brisa que fazia por arrefecê-la permitia respirar melhor e, uma esplanada cheia de vida perfazia o cenário ideal.

Melhor que alimentar o estômago foi satisfazer o coração com muita alegria, numa noite comemorativa de uma amizade além mar. A noite foi curta para tudo o que havia para dizer e partilhar, mas sem dúvida alguma memorável. Outras seguir-se-ão, com certeza!

sexta-feira, maio 10, 2013

Cidadão de Vénus

Sem pingo de dúvida que a culpa é delas! Vamos com calma que eu passo a explicar. É o sexo feminino que mantêm a chama que arde dentro de mim acesa, mesmo que varie entre um lume brando e um fogo florestal. Nesse espectro enorme vivem as paixões que aquecem o coração de um hopeless romantic. Compreendo que possa ser confuso tentar fazer lógica deste estranho combustível que mexe com os sentimentos, com desejos e até alguns pecados, mas é a particularidade de cada rosto, de um sorriso ou gargalhada, uma atitude, uma conversa, ou mesmo a maneira de vestir que manipula o termómetro da paixão. 

Atenção, falo sem malícia alguma, e nem sequer vou ousar (por muito que o desejasse, confesso envergonhado) em caminhar por trilhos que atinjam o patamar do amor, assim permanecerei pelo campo platónico, por sonhos semi utópicos e considerações. Todas estas características do filme que rola na minha mente entretêm a mesma ao longo do dia, esquecendo-me que o tempo não pára, são pequenos momentos que colocam questões e, ao mesmo tempo que estas acções bombeiam o coração, o olhar perdido nelas tenta invadir esta ou aquele mente e imaginar se nela habitam as mesmas questões, os mesmos sonhos ou qualquer espécie de reciprocidade. 

Não falo da doença insalubre que afecta tantos os homens apelidados de mulherengos, nem de perto ou de longe, falo sim de mulheres por quem sinto uma empatia tão grande, por vezes secreta dada as circunstâncias  que dar um olá chega a ser intimidativo enquanto que perante outra o diálogo é fluído e o olhar directo. Independentemente da situação acabo por viver cada segundo de cada momento de partilha de uma conversa, ou somente um olhar distante e observador, com pura admiração e fascínio, o que cá para os meus botões já foi razão para alguma troça por parte de segundos, ainda hoje uma provocação teve razão de o ser. Na solidão da minha mente deixo-me levar pela imaginação por sonhos, e como é bom sonhar com quem nos enche o coração com um calor apaixonante!

quarta-feira, maio 08, 2013

Lágrimas de euros

Provoca-me uma certa agonia e enjoo, ao ponto de meter nojo, o modo como certas pessoas se comportam dentro de quatro paredes e, depois como essas mesmas pessoas se transformam quando saem porta fora. Principalmente nos dias que correm, onde é habitual que o motivo para uma conversa puramente banal seja uma queixa monetária, porque falta isto ou aquilo, porque não existe quantias suficientes para adquirir alimentos, enfim, uma extensa lista justificativa para se colocarem no papel da vítima desesperada. Até compreendo a maior parte das justificações, agora o que não compreendo como é possível que essas mesmas pessoas depois sejam vistas, muitas vezes chegam ao ponto de se exporem, a irem a tudo o que é concertos ou jantaradas, temos também o exemplo de um esbanjamento monetário em roupas sem aparente necessidade, equipamentos electrónicos, actividades extras pagas e por aí fora... Sinceramente, a lista negra de choramingas wannabe começa a ser mais extensa que a minha paciência para a mentira e falsas aparências!

quinta-feira, abril 25, 2013

Amizades perdidas por amores vencidos

São poucos os factores de distúrbios que podem provocar em mim arreliação ou irritação. Quando a raridade ganha vida está tudo estragado e, ao contrário do passado, hoje sei ser mais moderado na resolução desse conflicto, mas custa tanto, ainda custa tanto lidar com a imaturidade de alguma juventude.

Na confusão que algumas das minhas palavras trouxeram, a falsa esperança foi mulher, procurou abraçar o que restava da fé mas acabou de mãos frias e vazias. Ainda as recebi e tentei aquecer, mas infrutífera tentativa a minha. Em raiva, só isso posso deduzir, apagou um passado recente e correu para arrancar qualquer raiz que ainda se esticava por terrenos férteis. Tudo no silêncio da sombra, sem proferir uma palavra ou gemido, sem acenar ou se despedir.

Suspiro, resta-me respeitar a solidão do momento, esperar que nunca seja motivo para arrependimento doloroso, porque se uma porta se tinha fechado uma outra ainda se abria para receber os amigos... Certamente estará trancada para quem encontra a solução na ostracização da própria amizade.

quarta-feira, abril 24, 2013

Birthday... check!

Muito depois do sol se ter deitado e a lua passear pelo céu, agora que já celebramos um novo dia, transformo em memórias os pensamentos de um dia que a mim muito me diz respeito. Estou contente por ter ouvido a voz de quem me é querido, as vozes de todas aquelas pessoas que fizeram questão em sussurrar ao ouvido os desejados parabéns, feliz por saber que não sou esquecido mesmo que não presente. Mesmo sem festa planeada, por causa de um vírus que fez deste corpo sua casa, as palavras pouco interessam, desde que cheguem e me abracem.

Existe porém um outro lado da moeda, que não consigo esquecer, que magoa e fere-me de morte. Houve um telefonema, em especial, que nunca falhou, que infelizmente não chegou! Por mais difíceis que fosse a condição humana fazia soar a campainha e me alegrava, a voz da minha querida avó. Arlete de seu nome,  nunca se esqueceu do seu neto, a sua voz caiu no silêncio no ano que ficou para trás, que tanta falta faz e perdura no pensamento. Passam seis dias do seu aniversário, um centenário de existência assim se comemoraria.

Lamento, igualmente, não ter podido sentir uma voz feminina tão querida e saudosa, que me acompanhou durante um par de anos, em conversas desgarradas, em provocações, sorrisos, olhares trocados e até algumas lágrimas. A história é longa tal como a espera por notícias, o que sei é que seria bem recebido a lembrança da minha pessoa. Até posso estar enganado, é possível que a memória se lembre da data e consequentemente da pessoa, talvez seja só o embaraço do diálogo que não possibilite o contacto.

Acima de tudo é bom saber que nos desejam bem, mesmo aqueles que só pelo politicamente correcto das redes sociais o façam. É bom saber, que no meio de tanta tristeza, existe quem nos faça sorrir e acreditar na empatia e no amor.

terça-feira, abril 16, 2013

Longe da vista, longe...

Longe da vista, longe do coração... A ausência magoa e não perdoa o coração. Lutamos e batalhamos por estar com quem nos é querido, uma tarde livre dá para passear de mão dada, uma folga a possibilidade de correr atrás dela para lá das muralhas citadinas. Tentamos encontrar sempre escapes para amarmos, vamos para além de qualquer custo monetário para sermos felizes, nem que por momentos únicos.

Por outro lado, existem certas atitudes que colocam um travão nesse livro, transformando desejos em meras utopias. É verdade que as palavras distantes ganham outro tom quando lidas, talvez por isso preze a veracidade de uma voz, porque se os olhos são o espelho da alma, os nossos ouvidos o coração que sente as palavras que nos invadem. 

Aprendi, nem sempre da forma mais sã, que o amor não consegue sobreviver à violência paranóica de meias palavras. A questão é que somos seres que cremos, que acreditamos em ilusões, que caímos constantemente em erros por fé na solução, na resposta certa, no final feliz. O mundo só dá pelo sol quando dessas cruéis lições aprendemos que nem tudo justifica a dedicação a um amor. É nessas alturas que as decisões mais dolorosas são tomadas, porque tal como na partida de um ente querido o amor não morre também numa relação que finda o amor não se evapora. Fica arrumado, com grande estima, numa gaveta eterna, nunca esquecido ou condenado a não sentir. 

Enamorando-me

Adoro! Adoro a maneira como os meus dedos entrelaçam-se com os dela, como se procurassem o aconchego de uma manta, apertando-a por prazer. Adoro caminhar preso nesse abraço, roubando um beijo em tom de desafio. Adoro a violência de um beijo sedento de paixão, ainda mais quando esses olhos verdes ganham luz e consigo mergulhar nesse lindo oceano. Adoro como a sua voz ganha uma nova vida em resposta a uma provocação, exaltando-se em admiração, logo seguido de um sorriso. Adoro o silêncio quando estamos juntos, porque jamais serão precisas vogais ou consoantes para te pedir um beijo.

sábado, abril 13, 2013

E assim começa...

Nem todos os inícios de uma história nascem de um sonho ou de uma ideia. Por vezes, é preciso um final, uma conclusão, para o mais belo conto ver escrito as suas primeiras palavras. 

É curioso, os mais banais diálogos, que tanto bocejamos no nosso dia-a-dia, podem ocultar pequenas acções de um subconsciente que faz por bater o coração mais depressa, acelerando-o como quem se esforça por atingir uma meta. Só que andamos tão perdidos, por entre rotinas, que nem sempre nos damos conta de um peito que faz por chamar à atenção, que grita tão alto aos nossos ouvidos moucos, corrompidos por uma sociedade ensurdecedora que os mantém cobertos. Só quando paramos, deslizando pelas águas serenas da nossa mente, é que parece percepcionarmos um sussurro à distância, como se fosse um grilo que se esconde no horizonte, assinalando a sua presença e, ao mesmo tempo, como que a convidar a nos aventurarmos por um novo mundo.

Quando damos por nós, olhando em redor, encontramo-nos num tabuleiro de um jogo misterioso, onde os sentimentos são postos à prova. As mais secretas palavras acabam por batalhar entre si, procurando sinais para a correspondência de um coração apaixonado. É um jogo arriscado, as expectativas são grandes, a ansiedade sedente por se alimentar do receio de uma negação. Lançam-se dados, em cada um dos seus lados uma letra transforma-se, é difícil adivinhar um nome, mesmo tendo a certeza dele, porém nunca a coragem para o nomear da mais directa forma. Afinal de contas, se se entra neste jogo é porque pensamos ter certeza de possuir o trunfo que fará por assegurar a doce vitória de um futuro feliz.

Este jogo só é ganho quando ambos os lados possuem o tal trunfo, composto por uma a palavra ou frase mágica, segredo que é a chave para abrir a porta de uma realidade, até ali só imaginada. Com a descoberta ascende-se a um patamar mais elevado. As pulsações fogem ao controlo do racional, a respiração parece cortar o ar mais denso e, sem o saber, alimenta-se o paladar com a troca de olhares, longe de todos mas tão perto de alguns. Mal se repara que o dia não é propício a grandes passeios, o vento empurra a maré, como que fizesse por folhear as páginas de um livro de memórias ali partilhadas. São tantas as mensagens que se deparam com altas muralhas, que só a insistência de um desejo ardente as consegue reduzir a mera poeira.

A tarde faz-se caseira, as palavras que até aquele momento transpiravam animo e boa disposição começam a tremer, provavelmente antevendo o silêncio de um beijo. Verdade seja dita, estava escrito que assim seria, por isso adiar aquele momento inevitável era inútil, só mesmo o cansaço de uma longa semana cuspia palavras sem grande sentido e mais que repetidas! A paciência de um foi a conquista do outro, lábios entrelaçados e o calor do momento despiu-os de qualquer preconceito ou medo que pudesse pairar no ar, ainda respirável e morno. Era o principio do fim da solidão e o inicio de duas vidas entrelaçadas, esperançosas e devotas.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Partir sob uma lua amiga

No escuro do apartamento, esticado sobre o sofá entretido com um dançar de dedos no comando de um jogo, dei com um toque tão familiar a soar do telemóvel. Admirado por alguém se lembrar de mim àquela hora corri para ele e logo desbloqueie para espreitar a mensagem. O carregamento da mensagem foi imediato mas não pareceu, mil e uma perguntas encheram a mente durante esse período de tempo, quem poderia ser, o que teria acontecido e, até pensei que pudesse ser alguém próximo com saudades... De repente apercebo-me do remetente, uma doce memória transformou-se num sorriso carinhoso, contudo, conforme os olhos caminhavam em direcção das próximas palavras, o coração apertou! Aquelas palavras denotavam uma corrente de lágrimas que percorriam o rosto de uma pessoa devastada pela racionalidade que faz de nós seres especiais. Tive o impulso de responder, de forma verbal, a essa triste notícia. Parei! Tentei fazer razão de tudo o que se estava a passar naquele instante e percebi que, apesar da amizade e um historial longo de afeição especial, não devia fazer sentir-me presente mais do que o necessário, mesmo que cá dentro aquele sentimento forte de protecção me empurrasse para lhe ligar.

Nas suas palavras revivi boas memórias da partilha de vivências com um ser que lhe era, e é, especial, não mais ou menos que os outros dois. Pessoalmente, não sei muito bem como é que alguma vez lidarei com a perda da minha adorada Cookie ou o adorável Joey, sei sim que a amargura e aflição será difícil de controlar e, por isso, será possível imaginar como é que alguém lida com a perda de alguém próximo, porque seja humano ou não, não interessa!

Quem me conhece sabe que o meu amor por gatos transcendente qualquer tipo de relação que possa ter com um cão. O bichano que ontem deixou de respirar era-me querido, não pela sua natureza mas por fazer parte de um percurso da minha vida extremamente importante. Era a sua simpatia, a sua maneira de me dar as boas vindas, a sua calma e beleza que o elegeram como favorito de três. Uma das memórias mais vivas é de um simples passeio, talvez a única vez que esteve cem por cento ao meu cuidado, em redor da urbanização, não só por ele mas também pela companhia e as palavras tocadas.

Felizmente, só posso dizer maravilhas desses tempos, agora distantes, sei que nunca será esquecido, muito menos pela sua família, e gosto de pensar que sempre fiz parte desse círculo.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Começar de novo

A cura será sempre filha do tempo. Pensei ter achado a solução para um coração despedaçado, mas a verdade é que a resposta sempre lá morou. Foram tantas as vezes que ouvi as pessoas dizerem, na sua maior parte das vezes em forma de conforto, que o tempo cicatriza todas as feridas abertas, que adocica a vida amarga e devolve o sorriso a uns lábios secos. Porém a intensidade dos sentimentos deixam pouco espaço para qualquer racionalidade, por isso só percorrendo esse trilho de carris, nunca desviando do percurso, que aos poucos retomei o gosto à vida, aos pequenos pormenores que me dão paz de alma e desfazem a ansiedade em cinzas dispersas pelo vento.

No mar sereno de sentimentos consegui de novo racionalizar os pensamentos, que por sua vez permitiram ver transformado em energia positiva gestos que são parte importante de tudo o que me caracteriza como ser. A obsessão deu espaço à sociabilidade fora de portas. Afinal, as pessoas com quem me cruzo são as mesmas mas a minha atenção é agora maior, não pela oportunidade mas sim por conseguir interessar-me de novo com as suas palavras, com as suas brincadeiras, as suas gargalhadas, sem que em momento algum as memórias me acorrentem e arrastem para um passado de desejos proibidos.

Este coração, outrora prisioneiro daquele rosto feminino, sente-se finalmente liberto de qualquer corrente, a apreciar a brisa da liberdade e esperançoso pelo que o futuro possa reservar.


segunda-feira, junho 04, 2012

Surpresas venenosas

A vida gosta de surpreender, disso não tenho dúvidas, porém nunca deixa que a surpresa seja minimamente previsível, daí custar viver esses momentos quando não vem por bem. Mas antes de mergulhar as palavras numa amargura total acho que é necessário explicar alguns acontecimentos recentes.

Na imperfeição dos dias encontro sempre motivos para justificar um sorriso ou gargalhada. Não um sorriso amarelo ou uma gargalhada atrapalhada, mas sim um sorriso BD (banda desenhada), como uma menina apelida o meu verdadeiro sorriso, ou uma gargalhada valente. Confesso que não tem hora para isso acontecer, contudo sucede mais quando uma chamada amiga é trocada ou numa saída à noite ao acaso.

Sabe bem! Este sabor doce de felicidade faz esquecer, nem que por momentos, a amargura dos problemas.que esperam solução, por vezes utópica. Na minha rendição a esta bela amizade encontro tudo o que preciso no presente, que cada vez mais assenta bem os pés no chão e que se recusa correr loucamente para além dele. Sei que esta valiosa amizade tem preenchido de calor humano dois corações perdidos, cada um com as suas próprias aflições, amizade esta que guardo e estimo como se de uma rara boneca de porcelana se tratasse.

Foram grandes demais os dias que antecederam um descanso já previsto e, quando a mente parecia encontrar, finalmente, o yang do seu yin, foi quando a balança voltou a desequilibrar e a vida surpreendeu. A revolta, o ódio, a expressão enrugada de arreliação transformaram tudo ao reparar num simples nome e numa mensagem recebida. Uma simples sopa de palavras foi o suficiente para transtornar, a arrogância da pessoa quase que permitia que a sua voz fosse ouvida, num longo sussurro que parecia chegar de longe. 

Agora, já os minutos perfizeram uma mão cheia de horas mas ainda sinto os dentes a ranger, tentando não deixar escapar um rosnar enfurecido. Se no desrespeitar, por amor, o respeito sempre foi bandeira ao vento, então não tolero que o desrespeito pelos os meus sentimentos seja motivo para justificar o contacto em forma de lembrança de persona non grata. Não mereceu resposta, simplesmente por mera boa educação, pois as palavras certamente seriam cruéis, manchadas de sangre e veneno.