As palavras serão sempre insuficientes e insignificantes para exprimir este sentimento de amor que tinha por uma mulher que deu sempre o melhor de si às pessoas, pessoa altruísta e bondosa.
As minhas recordações, que deixam hoje a pele em alvoroço, transportam-me à infância, quando viaja para a visitar, meio envergonhado, pois a idade avançada das pessoas por vezes assusta os mais novos, mas que com o passar dos minutos, já em sua casa, se evaporava. Uma das pequenas delícias que resultava dessa visita era poder deliciar-me com a marmelada bem caseira entre duas fatias de pão, que bom que sabia ao paladar poder lanchar naquela cozinha, e até trazer alguma para casa já no retorno. O frio era visitante habitual ao final do dia, ou não estivesse preso entre o norte e centro de Portugal, por isso era comum acender a lareira e, como adorava ver as faíscas a dançarem, a cor forte das chamas, mas mais que isso gostava de pegar na tenaz e estar ali a espicaçar a lenha a arder, não suportava as brasas e por isso queria sempre meter mais lenha ou virá-la para manter vivo a chama, ao que acabava sempre por ouvir dos meus pais.
Uma particularidade dessas visitas era uma pequena lembrança que se escondia no interior da sua mão, sem ninguém ver, pelo menos aos nossos inocentes olhos, ela depositava na nossa palma da mão, minha e do meu mano, umas notas de escudo. Óbvio que ganhávamos o dia com esse pequeno gesto e saíamos porta fora de sorriso largo. Do escudo passou ao euro e nós crescemos, as visitas diminuíram e os telefonemas eram agora mais comuns, até que a sua idade exigiu maior atenção e a distância diminuiu, agora já a viver na grande cidade.
Visitei-a um dia, não só para apresentar uma namorada mas principalmente para partilhar com ela a minha felicidade. Foi uma tarde inesquecível para todos! Depois de tantos anos deparava-me agora com o brilho nos olhos enrugados, num estado de felicidade contava histórias do tempo de jovem casada. A sua memória encantava a minha cara metade e, até eu que nunca tinha ouvido tais histórias, estava ali boquiaberto, atento a escutar todas as peripécias da sua vida. Era sem dúvida alguma um momento perfeito.
Como todos nós, ela teve de saltar por alguns obstáculos da vida, superando uns melhor que outros. Porém os obstáculos acabaram por ser demasiados para um corpo já cansado. Hoje, o sol que raiou não chega para aquecer um coração em sofrimento, cheio de saudade, pois o desejo de a ter presente num casamento ou a celebrar o nascimento de um filho, seu bisneto, será sempre um desejo que permanecerá nos meus sonhos.

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