A noite prolongou-se como outrora era hábito, já me tinha esquecido como era conviver com os mistérios que ela oculta, onde quem lá habita revela sempre um tom diferente naquelas tão deliciosas conversas, muito fora do comum, um tanto ou quanto intimistas, ou mesmo apaixonantes.
Nem sempre as palavras guardam o melhor dos motivos e anunciam boas novas, porém é possível contrariar o negativismo com tantas outras palavras que emanam paixão e amizade. Naquele dia, as suas palavras fariam sofrer a mais calorosa de todas as almas, conhecendo-me bem não podia ficar indiferente às lágrimas escondidas por detrás de uma voz tremida. Sentado no conforto do lar senti-me como se estivesse à entrada de um túnel e, do outro lado ela permanecia imóvel, sem sequer conseguir esboçar um sorriso em tamanha aflição. Por mais que lutasse, não conseguia chegar perto, não conseguia percorrer esse túnel maldito, onde qualquer gritar de palavras fazia ricochete na escuridão. Foi nessa impotência que tentei lutar contra a maré.
Os minutos completaram a hora e essa amaldiçoada maré acabou por baixar, permitindo alcançar a alma perdida no mar. Uma mão estendida, como uma pequena âncora, sinal de um porto salvo, acabou por fazer a diferença, a menina que tinha sustido a respiração podia agora suspirar e sobreviver, mais descansada, à noite.
O acordar honrou as leis da preguiça, devagar os sentidos foram assimilando o mundo em redor, a sensação de uma textura sedosa sob a mão aguçou um pequeno prazer matinal e, sem precisar de incomodar o olhar, sabia que não estava só. O tacto era ligeiramente tremido, como forma de agradecimento pelas caricias, aquele corpo ali adormecido ronronava de satisfação. Ali fiquei a apreciar o lento acordar, naquele dia não iria permitir ser incomodado por qualquer alarme agressivo que tentasse impor uma obrigação. Contudo uma sonoridade familiar foi o suficiente para fazer mover abertas as pálpebras, o telefone tentava agarrar a minha atenção, só me lembro de grunhir e pensar quem é que desafiava perturbar a doce saída do sono. Foi ao ver o nome marcado no visor que lembrei-me que tinha uma promessa a cumprir da noite anterior, sem hesitar um segundo mais, por entre um sorriso meio sonolento, ofereci um olá radioso ao atender. Logo questionado se ainda dormia caía por terra a ideia que já há muito tinha acordado.
Promessa feita, promessa cumprida! Sempre foi o meu lema, e já vem desde os meus tempos de escola quando uma boneca muito especial esperava o retorno emigrante de alguém próximo. Talvez por ser importante para mim, talvez por ser raro, ou não, faço questão que se saiba que ninguém poderá acusar-me de faltar a uma promessa que jurada não foi concretizada. O tempo pode não facilitar a tarefa, porém nunca irá impedir que as palavras prometidas se transformem no cumprimento honrado.
Chamada desligada e um último espreguiçar foi a despedida da serenidade. Saí porta fora e rompi por entre duas caras conhecidas, não deixando de as felicitar, deslumbrei logo quem me esperava, ali aquecida pelo reconfortante sol. Suspeito que aqueles dois, quase uma espécie de seguranças à porta de casa, comentaram o nosso encontro, nada ocasional. Naquele instante nem me apercebi disso, só mais tarde viria a ponderar sobre o assunto. Não deixa de ser engraçado, embora nos tempos que correm, todos nós acabamos por ser um tipo de sanguessugas de bisbilhotice alheia.
O dia acabou por ser agradável, a companhia e aquela estrela luminosa saciavam um coração enregelado por sentimentos mais solitários, embora se alguém alguma vez o comentar será sempre negado, ora pois! Não estava ali por mim, mas sim por quem precisa e me é querido. Assim, descemos a rua, novidade para mim que aqui ali já mora faz mais de um ano, como o tempo passa a correr... Invadimos a loja que estava nos planos e de lá saímos com um saco para ela. Com o sol já a querer esconder-se por detrás dos edifícios, agarrámos uns ingredientes da mercearia e subimos para preparar o almoço. É nesta espontaneidade em que a felicidade floresce, só conseguia pensar na última vez que tinha tido a oportunidade para cozinhar para alguém, porque adoro partilhar tal gesto, a satisfação de uma refeição partilhada com quem nos é próximo, a troca de gargalhadas e outras tantas palavras é um dos pequenos prazeres que de melhor a vida tem para oferecer. O que começou por ser uma promessa, uma âncora de salvação da infelicidade, acabou por ser se transformar num dia preenchido pela magia da amizade.
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