Ainda me lembro da primeira vez. Naquela sala, distante, uma rapariga entra e senta-se, meio envergonhada pela novidade de tudo a que rodeia. Na curiosidade, aperto os olhos para ver melhor, como que se os óculos não mais ajudassem a fazer sentido. Não deslumbro o seu rosto, coberto pelos seus cabelos. Na impossibilidade de fazer razão da situação, começa aquele murmurinho com quem está ao lado. "Quem é?", "É nova aqui?", "De onde veio?"...
Saio dali uma vez livre da obrigação e, sem quase emitir o mais pequeno ruído, percorro o corredor para procurar respostas para tanta curiosidade. Noto que por mais cuidado que tente ter, ela apercebe-se da sombra que atravessa a luz e, com um breve cruzar de olhos, desvia novamente a atenção para o trabalho e sigo como uma criança apanhada a roubar uma bolacha da cozinha.
Certo foram os dias seguintes, muitos murmurinhos, muitas questões, muitas incertezas e, recordo-me, que ainda demorou umas boas semanas até que finalmente tivesse a possibilidade de a conhecer, embora por essa hora já sabia mais dela do que ela de mim. Pelo menos deduzo assim ser.
A verdade pode ler-se nos olhos e, ai de mim que sempre olhei todos directamente naqueles pequenos espelhos, fico sem reacção ao perceber que a força falha quando o seu olhar mexe connosco, de tal maneira que a timidez volta a ter dezesseis anos.
Viver e trabalhar rodeado de diferentes belezas nem sempre é fácil, pois o pecado transporta-nos para mil fantasias. Contudo, não passa de brincadeiras de adulto feito jovem inconsciente, guardadas dentro de nós, sabendo que os limites existem e qualquer desejo é digno da filosofia de Platão. Mas no meio deste éden, existe sempre algo que nos toca na alma. São pequenos gestos, um sorriso mais timido, uma provocação mais picante, logo seguido de um aviso de brincadeira mas que, na realidade, não passam apenas de verdades sentidas.
Sei que descartei muitas ideias, e até provocações de pessoas mais próximas, mas estava eu cego perante a evidência nua. Não é novidade para mim! Esta cegueira de morcego acompanha-me deste muito novo, e por mais que a idade aprenda a ver melhor, muito passa-me ao lado. Os sinais estavam todos lá, desenhamos ao mais pequeno pormenor, porém não soube ou quis interpretá-los.
Interpretá-los. Sim, sem dúvida! Não só por estar perdido na tradução das palavras e acções, mas porque o coração ainda perseguia algo que fazia meses que tinha fugido, que jamais olhou para trás ou deu conversa e, não via maneira de colocar um ponto no fim daquela história triste. Custou ultrapassar e admitir que sonhos pintados jamais viriam a luz do dia.
Foi preciso viver a ausência para perceber que a partilha de memórias de uma viagem eram, sem dúvida alguma, como um estender de uma mão a convidar a melhor conhecer uma pessoa especial. A descobrir um pouco mais dela, mesmo que vozes mais próximas pareciam evidenciar que a reserva não seria tão grande como eu a via. Na incerteza procurei desvanecer qualquer nuvem que parecia querer formar-se e, ao encontrar a verdade que tanto ansiava, pura alegria na confiança depositada e na partilha de vivências.
O regresso trouxe aquela surpresa prometida de receber um carinho que nunca mais me abandonou. Foi como que um despertar para uma realidade que apenas já só conhecia dos sonhos. Uma importância que já não sabia reconhecer depois de atravessar um deserto que parecia não ter fim. Desde aí, as linhas brancas de um livro ganharam cor e começou a escrever-se uma nova história. E é nesses momentos, em que finalmente a ficção termina, quando os sonhos ganham uma realidade onde, a principio, as palavras atropelam-se, por vezes sem sentido algum, onde qualquer embaraço termina com um pequeno sorriso ou gargalhada, sem darmos importância alguma.
As últimas duas semanas mexeram com o coração, pois embora o nunca lhe tenha dito, senti sempre o seu olhar quando ela pensava que dava atenção a outra pessoa e, naquele jantar, senti-o por uma ou duas ocasiões. Talvez a bebida do deuses tenha favorecido o atrevimento, e mesmo que a tenha visto fugir cedo, não consegui fechar os olhos sem a certeza dos seus pensamentos.
Poderíamos ter mais dez ou vinte anos, mas não devemos ter sido mais jovens do que naquele momento. Apercebi-me disso, no dia seguinte, ao relembrar as palavras trocadas quando a lua já flutuava bem alta. Uma mistura de atrevimento e vergonha que nos faz querer esconder debaixo dos lençóis, ao mesmo tempo que rimos da surpresa e batemos com os pés de excitação, intercaladente, como se nadássemos a toda a velocidade.
Mas esta segunda.... Ai!... Só consigo suspirar sempre que volto àquele momento e os olhos iluminam-se emocionados. Foi tudo tão mágico, a simplicidade, os risos, o lugar, as memórias, a cumplicidade, a novidade e, em especial, sob o escuro da noite, a confidência.
Sei que sigo a duzentos quilómetros hora, louco com a pressa de chegar, bebado de sentimentos, mas caminhas devagar, pé ante pé, com precaução e contenção. Páro. Espero-te. Acredito que o balanço será alcançado com as sementes que cultivámos, com tempo e paciência, tudo para que uma bela flor possa ganhar raízes, desabrochar e crescer forte.
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